segunda-feira, 17 de julho de 2017

Conto: A velha da serralheria

Bom dia amigos, um bom início de semana a todos nós.
Deixo o conto A velha da serralheria que faz parte da edição de julho da Revista Conexão Literatura, espero que gostem.
Abraços,
Míriam


        
Uma das primas de Isabella estava noiva e com casamento marcado para o início de janeiro. Amigas desde criança, as garotas sempre passaram as férias escolares na Fazenda Floresta, no Jardim Alegre, Paraná.
         A fazenda era dos avôs maternos de Isabella, um lugar espetacular que outrora foi próspero e mantinha o bairro Pintor abastecido, pois a fazenda produzia café e mantinha centenas de cabeças de gado.
         Depois do falecimento do avô, a fazenda aos poucos foi diminuindo a produtividade, pois a avó não tinha mais condições de manter tudo aquilo, não com a ida do filho mais velho que se formara em Veterinária e mudara-se para São Paulo. O outro filho permanecera, mas pouco interesse tinha pelas terras, então, tocar todo o serviço pesado do campo apenas com os caseiros ficara cada vez mais difícil e foi por esse motivo que o gado foi vendido, e a plantação de café encerrada.
         Os animais que ali permaneceram foram catorze cachorros, sim, começaram com um casal e dali com a procriação, os animais se multiplicaram.
         E neste ano havia motivo para retornar à fazenda da vó Élida, pois a prima Valquíria iria se casar e resolveu fazer a despedida de solteira naquelas terras, para relembrar um passado tão querido e especial com as primas.
        - Há, vó, as meninas estão chegando! – Gritava entusiasmada Valquíria, anfitriã do final de semana e muito feliz em rever as queridas primas.
         Desceram do carro Isabella, Amanda, Priscilla, Mariane e Angélica, que era a mais velha das moças, já casada e com uma garotinha, que ficara com o pai.
         A avó estava contentíssima por conseguir rever as netas unidas como nos anos de colégio, quando passavam o mês inteiro das férias de julho ou janeiro.
         - Vó, disse Isa, aqui nada mudou, continua do mesmo jeito que da última vez que estive aqui, há uns 10 anos! – exclamou a moça, contente em rever seu lugar predileto pela beleza, serenidade e grandes atividades que realizavam.
        
- É, tudo está igual! – Disse também Amanda, que estava quase noivando de Guilherme, tenente do Exército Brasileiro.
E uma a uma as moças se abraçaram e também a querida avó Élida. Também vieram recepcionar as primas os caseiros Pedro e Cintia, que estavam na propriedade há mais de vinte e cinco anos.
         Foi um dia agitado, as primas puderam rever muitas das atividades que faziam lá, e uma delas era caminhar com os cachorros.
         - Olhem que imensidão de terras, disse Amanda, apontando para o corredor de passagem do canil até a porteira, o qual se via ao longe, os cachorros correndo.
         As primas foram andando e chegaram até perto da casa grande que ficava acima, e mais para baixo tinha uma piscina, que agora estava desativada, a casinha das máquinas, local onde os sacos de café eram acondicionados.
         - Nossa, me lembro como se fosse hoje, apontou Isa mostrando o local onde os avôs deixavam o café ao sol para secar. Bons tempos foram aqueles, disse ela com os olhos cheios de lágrimas.
         E a noite caiu cedo, um espetáculo o pôr do sol, um visual sem igual que encerrava a tarde para o início da noite e como a fazenda ficava em terra elevada, a beleza dos raios solares se despedindo do dia dava um toque ainda mais especial à cena. Novamente os olhos esverdeados de Isabella lacrimejaram.
         E as moças retornaram a casa grande da avó para cear; momento em que se fez presente também o tio Paulo, que retornara da cidade. E naquela noite todos se divertiram bastante com as histórias relembradas, com o tombo de Isa, que ficou sem o dente da frente numa das férias, quando brincava nas canaletas, e os animados jogos de bets, praticado em local de terra bem batida, o terreno sem pedras era excelente para este tipo de esporte.
         - Vocês se lembram do que tinha bem abaixo desse terreno? – Perguntava Amanda.
         - Sim, um desfiladeiro, respondeu Isa.
         - Sim, e abaixo disso? – Insistia Amanda, só para saber se elas haviam se esquecido do grande mistério que rondava por lá.
         - Há, já sei, - disse Priscilla, você está querendo dizer da assombração?
         - Ui, gritaram todas de uma só vez: a velha da serralheria! – e a gritaria foi geral, pois como poderiam se esquecer da história da velha, motivo de pavor que atormentava as primas.
         Isabella, no entanto, foi a que mais ficou atordoada, pois uma vez disse ter visto um vulto, supostamente da velha e o assunto gerou polêmica na mesa, irritando Isa que foi para o quarto.
         ...
        
A avó acabou com a confusão e o caseiro Pedro falava que a história não seria possível, porque era uma lenda urbana.
         Na manhã, as primas sentiram falta da presença de Isa. No quarto, a moça não estava e a cama arrumada.
         Isa não conseguira dormir. Levantara antes do sol se por. Caminhou até o desfiladeiro. Respirou fundo e começou a descer bem devagar. Ao término da escalada, avistara o galpão, as máquinas, os destroços; o local estava exatamente do mesmo jeito da vez que estivera ali.
         Isabella ficou parada em frente à serralheria e o medo de rever a velha a deixara novamente assustada. Ela andou e entrou no galpão e começou a procurar por uma pá. Ao encontrar, caminhou lentamente até o jardim.
         Isa observou e logo distinguiu onde estava mais florido e bem cuidado era exatamente onde deveria ser cavado e assim ela começou. Ao enfiar a pá na terra, novamente Isa teve a mesma visão de outrora ...
         ... A serralheria era grande e linda. Bem arrumada, pintada e toda equipada, um homem grande e forte trabalhava sem parar para entregar uma encomenda. Os empregados já haviam ido embora e o homem, o dono do lugar, estava sozinho. Não demorou e uma mulher chega, ela vinha da cidade e trazia duas sacolas nos braços. Era uma mulher jovem muito bonita e bem vestida. O homem para o serviço e pega uma carta do bolso. Ele mostra a ela, que dá de ombros e continua andando até a porta de entrada da casa. Ele vai até ela e a segura com força. Ele grita com a moça e bate no rosto dela com a carta. Ela se afasta e vira-lhe as costas. O homem se enfurece e a segura novamente, desta vez, com mais força, a tal ponto de jogá-la ao chão. Não satisfeito, ele se aproxima dela e lhe dá uma bofetada. Lágrimas escorrem do rosto dela, mas a mulher provoca com uma gargalhada. Ele novamente bate no rosto dela, desta vez com mais força, e bate novamente. Apanha um pedaço de ferro e com força bate na cabeça da moça, que fica toda ensanguentada e imóvel ...
         ... Isa sai do transe por uma voz que grita perto dela.
         — O que você está fazendo aí, sua fedelha? — Era uma voz masculina.
         Isa se assusta e para. Rapidamente pulou de onde estava e virou-se para ver quem estava falando.
         Ao ver Pedro parado na sua frente, ela se assusta e deixa a pá cair.
         — O que pensa que está fazendo? – Gritou o homem raivosamente.
         — Estou cavando, pois só assim acreditarão em mim, explicou a moça, dizendo que os restos mortais deveriam ser enterrados dignamente.
         — Você nunca deveria ter vindo aqui, sua intrometida. — Chegou mais perto Pedro.
        
Isa suspirou e arregalou os olhos. — Meu Deus! E se afastou dele. Foi você quem a matou, agora consigo me lembrar do homem, como pode fazer isso, por quê? — Gritou a moça, chorando, pois Pedro sempre fora querido por todos.
         — Aquela vagabunda estava me traindo, descobri uma carta e ela iria me deixar e ainda caçoava de mim. — berrava Pedro.
         E ele foi se aproximando de Isa. Apesar de ser um homem de meia-idade, era ainda forte e hábil.
         Isa tentou correr, mas o homem rapidamente agarrou o seu braço, assim como o fez com a pobre moça, sua primeira esposa, e a jogou ao chão com força. Num piscar de olhos ele pegou a pá e veio para cima de Isa, que grita apavorada. Pedro estava com a pá quase em seu rosto quando ele para e se afasta.
         Pedro olha para trás, fica bem em frente à serralheria que estava quase encoberta por uma névoa. Nisso, ele vê um vulto se aproximando, tenta correr, mas não consegue, era como se estivesse grudado ao chão, e o vulto se aproxima mais, quando chega bem perto, o vulto (a velha), se transforma na imagem da moça, que aponta para ele, como se estivesse cobrando por alguma coisa. E, de fato estava.
         Pedro se assusta, e sente uma forte dor no peito. Começou a apontar para a velha com a mão trêmula e em passos lentos começa a andar para trás com a outra mão ao peito. Os passos foram diminuindo até que ele para e o corpo tomba para trás. Nisso, a imagem da velha e o nevoeiro foram se dissipando por completo, e Isa que assistia a tudo perplexa, entendeu que finalmente, depois de tantos anos, justiça tinha sido feita.
         ...
         Depois de dois dias, as primas ainda não haviam partido da Fazenda Floresta, pois tinham dois enterros a acompanhar.


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