CONTOS

Caminho

Pessoas rabugentas estão em todas as partes do mundo, assim como os avarentos, estes são os piores, pois alteram a balança do universo, ou melhor, o pêndulo de sustentação, que faz com que o planeta consiga balancear suas energias de si próprio como de todos os seres que aqui habitam, sendo o Homem o único que causa transtornos a essa balança.
        A rabugenta que conheci era uma senhora que vivia sozinha, era viúva, ela morava em um prédio pequeno e sem nenhum conforto, não que isso fosse um problema para ela, mas no fundo, também era alvo de suas reclamações.
        No edifício, era conhecida também como “a mulher das lamentações”, porque nada estava bom e sempre tinha alguma coisa a se queixar.
        Mesmo com esse temperamento, Helena, ou Lenita - nome escolhido por sua mãe, leitora do escritor Júlio Ribeiro e o nome foi do romance A Carne - tinha amigos já não eram muitos como no passado, mas ainda restavam alguns que gostavam dela; acho que sentiam pena.
        — Lenita querida, o que fará nas festas de final de ano? — Ligou Fátima, para convidá-la a ficar em sua casa.
— Amiga, agradeço por seu convite, mas passarei o Natal e o Ano-Novo aqui mesmo.
        A amiga entendeu que ela não queria ver ninguém, bem, todos os anos era a mesma coisa e há anos Lenita ficava em casa sozinha, reclamando da vida, desperdiçando o tempo precioso em vão.
        Naquela noite de Natal, após a Missa do Galo Helena foi dormir. O relógio do criado-muda marcava 2 da manhã, horário em que levantava todas as noites para beber água. A vida dela era uma rotina até mesmo na hora do descanso.
        — Preciso beber água, falava a mulher, mas em tom de reclamação, e mesmo assim foi até a cozinha. Quando retornava para o quarto, Lenita teve uma surpresa inesperada.
        — O que está acontecendo? — Indagou a mulher, que se encostou no corredor de acesso, ao se deparar com três portas diante de si.
        Ela esfregou os olhos e ficou parada, sem reação alguma, pois o apartamento tinha dois quartos e agora diante dela estavam as três portas.
        — Meu Deus, isso só pode ser sonho! — Lenita voltou para a cozinha e ficou lá por alguns minutos, sem saber o que fazer. Ela sabia que teria que retornar ao quarto e assim o fez.
        A mulher saiu da cozinha e parou imóvel, olhando para as portas. Um desespero tomou conta de seu ser e ela não tinha a quem recorrer, teria que sozinha, fazer a escolha certa, assim como muitas que fizera durante toda a sua vida.
        Respirou fundo e deu os primeiros passos, ela abriria a porta do meio, sim, essa seria a entrada de seu quarto. E assim o fez girando a maçaneta até que a porta se abrisse. Ao entrar no quarto, a porta se fechou. Helena correu e tentou abri-la, em vão.
        Lenita fechou os olhos e ficou de costas para o quarto, parada e sem nenhuma atitude. Lentamente ela foi se virando de tal maneira, que se machucou na maçaneta, pois o corpo estava “colado” a porta. Lentamente a mulher foi tomando fôlego e coragem e abrindo os olhos.
       
Sem estrutura emocional, Lenita foi escorregando ao chão, pois não acreditava no que via. No entanto, levantou-se rapidamente e girou a maçaneta várias vezes, batendo na porta e pedindo socorro. Ninguém iria em sua ajuda, ela teria de encarar o que viesse pela frente.
        E Lenita ficou observando o que se passava, sem compreender. O quarto não era o dela, e estava no meio do nada, e adiante, um caminho a percorrer.
        A mulher, mesmo sem forças, tinha de enfrentar aquele desafio.
        — Meu Deus, eu te suplico, porque tudo isso está acontecendo comigo? — O que o Senhor quer de mim? E sem resposta alguma, a mulher enxugou as lágrimas e se preparou para a caminhada.
        Ela se desgrudou da porta e foi andando devagar. Estava escuro e o estreito caminho com pouca iluminação. A mulher deu mais uns passos e ao olhar para trás, a porta estava tão longe que mal ela podia ver. — Como isso é possível? Indagava, eu nem desgrudei direito da porta e ela está quase desaparecendo! E uma voz interior silenciou seus pensamentos, para que ela pudesse relaxar a cada passo.
        No caminho, juntaram-se mais três mulheres com ela e todas prosseguiram lentamente para algum destino. Mais adiante, o lugar ficou mais claro e Lenita observou as mulheres, que falaram com ela. A mais nova era cheia de vida, falante, risonha, linda e feliz. Já a mulher balzaquiana tinha uma fisionomia ranzinza, não falava muito e as poucas palavras eram para reclamar de alguma coisa. Ao olhar para a terceira, esta era uma senhora de cabelos brancos, pálida, magra, sem vida e sem forças até para falar, ela apenas olhava e caminhava; sua expressão era de tristeza. Lenita se arrepiou por inteiro, mas todas continuaram a caminhada.
        A mulher mais jovem percorria cantando, uma melodia alegre e saudável. Helena tentou conversar com ela, mas recebeu um cutucão e um sinal de não da mulher balzaquiana.
        A cada passo, o caminho tornava-se diferente. De totalmente escuro, o percurso ficara mais bonito com lindas árvores e pássaros aos galhos. O caminho cortava uma cidade. Pessoas acenavam para a mulher mais nova e mandavam beijos, eram seus amigos e parentes. Todos tinham suas vidas e a cidade também, e nada interferia no caminho. Era como se elas estivessem dentro de um brinquedo, aqueles montáveis com trilho de trem e cidade ao redor. A sensação era essa.
        Ao olhar para trás, a porta do quarto desaparecera e Lenita não mais conseguiu ver sua casa. Isso a deixara apreensiva, pois viu que o caminho estava chegando ao fim e se aproximavam de uma casa grande, bonita e com a natureza ao redor.
        As quatro mulheres se aproximaram dessa casa e a porta da rua já estava aberta. Entraram e o local não tinha móveis, nem quadros, apenas paredes brancas e muito limpas. O chão era a continuação do caminho, que as levou até uma imensa sala. Lá aguardavam algumas pessoas, uma delas olhou para as mulheres e falou que todos passariam por uma entrevista e que teriam de aguardar em silêncio, e assim elas sentaram e esperaram a vez.
        Lenita viu uma mesa e cadeiras e um homem se aproximou. Era um senhor de bengala, chapéu e muito bem vestido. Era magro, com cabelos grisalhos e sem barba.
       Durante o tempo de espera, Lenita absorveu-se em seus pensamentos e nem percebeu que não havia mais ninguém, apenas as quatro.
        O senhor fez sinal e pediu para que todas fossem até ele.
As mulheres sentaram e o homem pediu para que a mais jovem contasse a sua vida.
        Ela era brilhante, cheia de ideias, vigorosa e amante do viver. Na infância e na adolescência, também tivera momentos de tristeza, de incompreensão porque ela tinha um espírito livre e aventureiro. Fizera muita coisa na juventude e ela preservava, acima de tudo, a sua liberdade. Porém, casou-se e teve um filho e a vida para ela foi se modificando e tornando-se rotineira e chata.
        — Ela teve um filho! Admirou-se Helena, pensando no seu que não o via há alguns anos, após uma briga quando ambos pararam de se falar. E Lenita começou a chorar de saudades, não percebendo que a jovem terminara sua conversa. O senhor nada falou apenas fez sinal para a mulher de meia-idade.
        E assim, esta também contou sobre seus acontecimentos. De quando rompeu com o único filho e não mais foi procurá-lo, motivo de tristeza do marido, que faleceu com essa mágoa. Das reclamações de tudo na vida, de morar em um lugar que não gostava, e por aí foi a lista de insatisfações e das coisas mesquinhas, entre uma infinidade de fatos desagradáveis.
       O senhor fez com que a mulher terminasse e também nada falou a respeito de tudo o que ouviu, apenas fez um sinal de que havia terminado as entrevistas.
        — Mas como? A senhora e eu, não falaremos? — Questionou Lenita.
        — Acho que você não entendeu ainda o porquê está aqui. — Respondeu o senhor. E com um estalo de dedos, as três mulheres ficaram com a fisionomia de apenas uma, de Lenita. — Será que agora você compreende? — Disse-lhe o velhote.
        — Lenita estava boquiaberta e gaguejou ao falar. Eu tinha suspeitas, pois as histórias de vida se pareciam com a minha. Bem, sendo assim, faltou a velhota. Eu queria saber sobre...
       — Psiu, fez o senhor, balançando a cabeça um não e com o dedo na boca, sinal para que ela ficasse quieta. Digo-lhe que até agora você ainda não compreendeu. — Falou já sem paciência o homem. — Você com esse temperamento arruinou muito de sua vida.
        — Então, gritou Lenita, querendo saber sobre o futuro. O que tem a se explicar a senhora?
        — Nada, disse-lhe o velhote, comandante do karma humano e conhecedor de toda a verdade da humanidade. A senhora é o seu futuro, e ela está aqui para que você veja como será o seu fim, caso você não modifique o seu presente. Olhe bem para ela e reveja se você quer terminar os seus dias na terra desta forma porque ainda há tempo de mudanças, respondeu o homem. Sempre a esperança é apresentada ao ser humano. O caminho certo de sua vida é você quem o faz, finalizou o senhor.
       
Lenita virou-se para a senhora, que estava com a aparência de mais sofrimento e pior do que antes durante a caminhada e se espantou.
        Depois disso, o homem pediu que todas se retirassem, pois o tempo se esgotara e elas deveriam voltar.
        No caminho, as quatro voltaram juntas, mas na metade, a jovem se despediu e depois a balzaquiana. Lenita terminou somente com a velhota. Antes de chegar à porta de seu quarto, a senhora fez um sinal para que ela refletisse e acenou um adeus.
...
        Ainda era muito cedo quando Lenita acordou toda suada e sentindo-se exausta. Permaneceu na cama sem forças e ficou refletindo sobre tudo o que passara durante a madrugada.
        Num estalo, saiu da cama e tomou um banho. Comeu alguma coisa rapidamente, pois tinha pressa; sabia que não podia desperdiçar mais o seu tempo.
        Era dia 31 de dezembro. Lenita chamou um táxi e foi até a casa do filho. Essa era a sua prioridade.
        As outras coisas, sim, ela corrigiria ainda no ano vindouro.  
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Quase sexta-feira 13

Virginia olhou no relógio de casa - um antigo modelo do século XIX, aqueles que anunciam as horas com badaladas à hora cheia -, que avisava que eram 11 horas da noite.
A relíquia da família deixou a moça atorduada, pois logo viria a meia-noite de sexta-feira, que para ela não seria um dia comum, era a última sexta-feira 13 do ano.
A jovem lembrou-se então da última que ocorreu, e daquele mau agouro que a atormentava desde a adolescência. Cheia de crendices, pois Virginia acreditava em mau pressentimento ou mau sinal e carregava em sua bolsa patuás, pé de coelho e vários objetos que afugentam infortúnios.
Andando de um lado ao outro, ela conseguiu deixar a mãe nervosa.
— O que você tem? — Questionou a mãe.
— É que amanhã é sexta-feira 13 e...
— Não me venha com essa bobagem novamente, interrompeu a mãe, uma pessoa cética. — Vá dormir que já é tarde e pare com isso, retrucou.
— Acho que ela tem razão, eu sou muito influenciável e fico colocando bobagens na cabeça. E Virginia atendeu às ordens.
A moça deitou-se e logo pegou no sono.
Um estrondo a fez acordar assustada. Pulou da cama rapidamente e viu que chovia muito lá fora. A janela do quarto estava aberta e o barulho foi proveniente de um raio. A moça fechou a janela. Tudo isso já foi motivo para deixar Virginia assustada.
— Vou tomar um copo d´água com açúcar para me acalmar, pensou a jovem. Bem, minha vó diz sempre que resolve, pensava Virginia.
Antes de descer até a cozinha, Virginia tentou acender as luzes, mas o terrível estrondo atingiu algum transformador de luz da rua, que estava inteira na escuridão.
Um nó formou-se na garganta de Virginia, que engoliu em seco. As mãos da moça começaram a suar, assim como a testa.
— Vou descer bem devagar os degraus, pois preciso beber água de qualquer jeito, pensava a moça.
E Virginia foi descendo lentamente pelo corredor. A cada degrau, o coração batia forte; era uma sensação horripilante de pânico, mas ela tinha que enfrentar tudo aquilo, afinal já não era mais uma garotinha apavorada, estava com 25 anos.
E Virginia foi caminhando devagar e chegou a sala. Da janela, pode constatar que toda a rua estava à penumbra, à sombra da escuridão e refém dos seres que habitam o lado negro. Esse era o pensamento da jovem, coisas terríveis que uma mente apavorada pode traduzir.
— Bobagem minha ficar pensando nessas coisas, vou pegar água que ganho mais, retrucou para si mesma Virginia.
Respirou fundo e foi em direção da cozinha.
Ao passar pelo corredor, o badalo do relógio começou anunciar que já era meia-noite, e mais uma vez, a lembrança da sexta-feira 13!
Ela então correu para a cozinha, iria beber água e retornar ao quarto.
Ao chegar a pia, Virginia viu um vulto passar rapidamente pelo lado de fora da janela.
Com o susto, a moça deixou o copo cair dentro da pia. Ela tremia da cabeça aos pés. Paralisada de medo, ela tinha que sair dali de qualquer maneira.
E Virginia tentou caminhar o mais rápido que pode. Nisso, quando estava já no corredor, ela ouviu um barulho na cozinha e depois passos que se arrastavam para fora dela. Já sem fôlego e com o coração à mão, Virginia virou lentamente e o mesmo vulto, estava agora dentro de sua casa.
Ela tentou gritar, mas a voz não saia. Virou-se, reanimou-se e começou a subir os degraus, conseguindo chegar até a porta do seu quarto.
— Isso não pode estar acontecendo comigo! Suplicou para si mesma.
Tremendo, Virginia foi perdendo os sentidos e se jogou na cama. Puxou o lençol até cobrir-se por inteira.
Quando estava já se recuperando, ela escuta passos em seu quarto e isso a fez delirar de medo. Com um impulso e forças que ela tirou sabe-se lá de onde, Virginia levantou-se rapidamente da cama e partiu para a maçaneta da porta. Nisso, algo segurou muito firme seu braço. Ela não teve coragem de ver o que era, se debatendo, sua voz retornou e ela começou a gritar...
...
— Meu amor, se acalma, falava a mãe abraçando Virginia, que estava desfigurada e pingando de suor da cabeça aos pés.
Virginia então abriu os olhos e estava nos braços da mãe.
— Você estava tendo um pesadelo e gritou muito, até me acordou, falou a mãe.
Aos poucos ela foi entendendo o que se passava e se recuperando de tudo aquilo.
— Vou dormir aqui com você, disse a mãe, preocupada com o estado da filha.
Amanheceu e Virginia sentia-se bem. A mãe já havia se levantado e preparava o café.
— Ufa, tudo não passou de um sonho! Respirou aliviada.
Ao terminar de se arrumar, Virginia foi até o espelho do banheiro para se pentear. Ao olhar fixamente para o seu reflexo no espelho, ela deixou o pente cair de suas mãos.
Boquiaberta, viu que seu braço estava arranhado e com um hematoma, como se fosse marcas de mão. 
Nisso a mãe entra no banheiro e Virginia começa a mostrar o braço e a falar do que havia acontecido.

         Meu Deus, pensou a mãe, ela continua com esses delírios sempre na sexta-feira 13, a lembrança do pai ter desaparecido nesta data a persegue sempre.  
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O Estranho

Laurence tinha pouco mais de 65 anos, mas a aparência era de um senhor de quase 75 anos, devido a saúde que sempre fora debilitada, pois desde criança adoecia fácil, apesar da boa situação financeira, e nunca teve muita resistência, ficando doente com frequência.   
Como vivia sozinho, uma vez por semana uma enfermeira o visitava para medir a pressão e falar sobre vários detalhes. Mesmo assim, Laurence vivia feliz com sua rotina e não reclamava de nada. E assim Laurence foi sobrevivendo e comemorando cada ano de vida, mesmo sem nada aproveitar.
Laurence só teve uma namorada e não conseguiu se casar. Esse grande amor de sua vida ele a conheceu no hospital, fazendo hemodiálise e ela morreu aguardando na fila de transplantes, ansiosa por um doador.   
Naquela manhã, saudoso por seu passado, Laurence pegou um álbum de fotos e cuidadosamente abrindo cada página foi deixando as lembranças refrescarem sua mente; folha por folha, uma história a recordar. No começo de sua trajetória de vida, as fotos de seus pais, sempre presentes, em todos os momentos. E as primeiras lágrimas que desceram por seu rosto, sentimento esse de felicidade e de agradecimento por tudo o que fizeram por ele.
Depois chegou a vez de Laura, o grande amor de sua vida. As fotos do noivado o fizeram reviver toda aquela alegria que durou tão pouco! Laura também era uma pessoa feliz e meiga. Assim como ele, lutava pela vida e nunca desistiu, sempre teve esperanças de que conseguiria um doador para substituir um rim, mas o tempo foi passando e ela não mais resistiu. Desde então Laurence sempre esteve à frente de campanhas em prol da doação de órgãos, foi uma luta constante na vida dele, conseguindo que muitas pessoas deixassem a ignorância e a desinformação de lado e se tornassem doadores. Foram anos em prol dessa campanha e Laurence teve a certeza de que conseguiu mudar a história de muitos que aguardavam na fila por um transplante.
E Laurence acariciou foto por foto. Era linda e tão jovem! — pensou ele e mergulhou num choro emocionado, por ter vivido poucos momentos ao lado dela.
Deixou as recordações de lado e foi lavar o rosto, pois a lembrança de Laura sempre o deixava abatido. Cansado, largou o álbum numa mesinha ao lado da cama e deitou-se.
Na manhã seguinte, Laurence estava melhor. Ao levantar-se da cama, olhou para o seu precioso álbum e ao fechá-lo para guardar, uma foto se desprende e, lentamente, foi planando até pousar suavemente ao chão. Laurence abaixa-se para apanhá-la. Então depara-se com uma pessoa que não via há muito tempo, um velho amigo, um dos poucos que fizera parte de sua jornada.     
Ao segurar a fotografia, Laurence senta-se na cama novamente e não teve como impedir as recordações que aquela foto trouxe à sua mente.
E flashes de tempos longínquos na Capital paulista foram invadindo o passado de Laurence novamente...
...
Era o ano de 1975. Lembro-me que eu passara no vestibular para História na USP e iria começar as aulas. Logo no primeiro dia, devido à imensidão da universidade, me perdi e cheguei atrasado à aula e assim também aconteceu com um jovem, Arthur. Sempre adorei estudar fatos e movimentos históricos e tudo o que se relacionava à razão da Humanidade me fascinava.
E nós perdidos conseguimos encontrar a sala e daí surgiu a nossa amizade.
Ah, Arthur, era bem apessoado, agora me lembro dele, depois de olhar a miúde para essa foto. Alto, de cabelos e olhos negros numa pele muito branca. Tinha dentes maravilhosos e branquíssimos e um sorriso cativante. Ele era três anos mais velho que eu, e dissera que seus pais se divorciaram quando ele era pequeno, então, vivia sozinho, trabalhava meio período e complementava o salário com dinheiro que o pai lhe deixara. Bem, essa foi a história de vida que ele me contou, pois uma vez perguntei porque nunca havia visto seus pais, nenhuma fotografia e nenhum parente. Dissera-me que a família inteira vivia no Sul do País.
Arthur era resolvido em todos os aspectos, de uma certeza do que almejava na vida que até parecia mais velho; sim, tinha a cabeça de um velho, num corpo jovem, falava eu sempre a ele.
 Apesar de chamar a atenção das garotas, Arthur não namorava ninguém, dizia que tinha muito a estudar e que ainda não havia aparecido aquela que preencheria seu coração. Ele tinha uma educação refinada, era inteligente e falava dois idiomas. Um dia o apresentei a meus pais, que gostaram muito dele.  
Terminamos o ano e um dos colegas convidou todos da classe para uma festa, era mais um dos tradicionais bailinhos de casa, costume naqueles tempos.
— Laurence, será um festão e não me venha com nenhuma desculpa para não ir, passarei na sua casa para irmos juntos! — Disse Arthur baixinho ao meu ouvido, pois eu não participava de quase nada em todos aqueles tempos que nos conhecemos.
E desta vez tomei coragem e fui. Chegando a casa de Renato, o anfitrião, os colegas todos estavam lá.
Arthur dançou a noite toda com várias garotas, que se derretiam nos braços dele.
Já era tarde quando questionei para irmos embora, pois eu estava exausto. Como a festa era perto de minha casa, fomos caminhando e conversando. Arthur todo glorioso por ter dançado com as moças e eu contando a minha façanha de ter ficado apenas com uma. De repente, um bêbado pára em nossa frente e nos importuna. Ele queria dinheiro. Não demos ouvidos e continuamos a andar. Ele então virou-se e segurou o meu braço. Enraivecido, Arthur o ameaçou a largar-me, mas o homem não ligou e continuou a apertar o meu braço.
Arthur então lhe deu um safanão com tanta força que ambos, eu e o bêbado, caímos ao chão.
— Rápido, levante-se, disse Arthur para mim.
— Então vamos embora, puxei o meu amigo pelo braço.
— Não, vá, vou ter uma conversa com ele, disse Arthur.
— Não, vamos embora agora, gritei eu.
— Já disse que não! E ele me empurrou, me afastando dali. Quando olhei para os olhos de Arthur me aterrorizei, pois avermelharam-se e seu semblante não era mais do jovem que eu conhecia, parecia outra pessoa, estava irreconhecível!
Sai correndo e me escondi atrás de um poste, junto a um carro parado na rua, a poucos metros dali. Arthur não me viu. O homem ainda estava jogado ao chão, tamanho o seu estado de embriaguez. Arthur chegou perto do bêbado e se agachou, ficando bem junto ao homem com o corpo sobre o dele. Arthur segurou bem firme os dois braços do bêbado com mãos e em seguida posicionou sua boca encostando na dele. Consegui ver que ele apertava os braços do homem, que não se movia. A cena durou poucos minutos.
Arthur então se levantou. Arrumou-se e olhou para todos os lados, e não me viu. Eu, quando ele se ergueu, me agachei e fiquei encolhido o máximo que pude para que ele não me visse. Eu tremia dos pés a cabeça e estava aterrorizado. Por sorte, Arthur foi na direção contrária e sumiu na noite. Levantei-me trêmulo e com dores no corpo todo tamanha era a minha tensão. Sem muita coragem, fui ver o que tinha acontecido ao bêbado.
Chegando perto, vi que o homem estava irreconhecível! Com os cabelos completamente brancos, o homem estava velho, aparentando ter mais de 90 anos.
Não consegui ver mais nada, vomitei e com o resto de forças sai correndo para minha casa. Entrei e me joguei no sofá.
Lembro-me que amanheci febril e fiquei de cama. Não tive coragem de contar, disse para minha mãe que havia comido e bebido e que algo me fizera mal.
Depois desse dia, o medo que senti de Arthur consumiu minha alma.
Jamais tive coragem também de indagar algo do que aconteceu. Depois de um tempo, aquela cena horrível foi lentamente deixando minha mente e a imagem do pobre homem foi desaparecendo.
Discretamente eu evitava ficar sozinho com Arthur, sempre dava uma desculpa qualquer bem condizente para ele não perceber. E assim passou mais um ano.
Lembro-me que aconteceu outro incidente, agora na USP, pois encontraram um estudante do mesmo modo que morrera o bêbado. Foi um tumulto que deixou todos da universidade aterrorizados.
Ninguém soube o que aconteceu, repórteres tentaram de tudo, assim como a polícia para descobrir, mas nada foi provado. Como não havia câmeras, nunca se soube quem foi o autor do crime. Menos eu que fazia ideia de quem era. Um jornal famoso daquela época, O Notícias Populares, publicou muita matéria a respeito, mas nos textos, um monstro enorme era o autor e a história prevaleceu por algum tempo, o que deixou ainda mais nervosos e amedrontados os frequentadores da universidade.  
Depois desse episódio, tudo voltou à normalidade e eu desisti do curso. Tentei várias vezes falar com alguém a respeito, mas não tive coragem, por medo de Arthur e de me acharem um louco.
Fui anos mais tarde fazer outro curso em outro lugar.
Depois do incidente da USP, acompanhava o jornal diariamente, mas não li nada mais a respeito. E isso sossegou meus pensamentos, me senti aliviado e a pensar que Arthur não mais cometera outros crimes.
 Laurence olhou novamente para a foto dele junto a Arthur com copos na mão brindando, lembrando que fora feita na noite do bailinho pelo pai de Renato que estava fotografando todos os amigos do filho, entregando-as no início das aulas.
A foto, como ela veio parar comigo? Perguntou-se Laurence, pois a fotografia ficara com Arthur. Não me lembro de ter pedido ou solicitado o negativo ao pai de Renato para revelar. E Laurence ficou pensativo tentando desvendar aquele mistério.
No dia seguinte, estava com a enfermeira Rosa em casa quando a campainha toca.
Rosa atende e convida a visita a entrar.
— Senhor Laurence, um amigo veio visitá-lo, ele o está aguardando no sofá, disse Rosa.
Laurence guardou o pente e foi caminhando devagar até a sala. Ao chegar perto da pessoa, uma dor forte no peito e um tremor o fez sentar-se.
— É você? Não pode ser! — Disse Laurence completamente desfigurado de pavor.
— Como pode, você continua jovem, assim como o conheci! Exclamou Laurence, esfregando os olhos para ver se a imagem era real.
Laurence então despachou a enfermeira, dizendo que estava bem e que o amigo lhe faria companhia.
— Como você descobriu o meu endereço depois de tantos anos? E como pode você estar do mesmo jeito, com a mesma idade? — Questionou Laurence.
Arthur riu e coçou a cabeça.
— Me diga o que fez desde o dia em que matou aquele estudante, quantos mais? — Indagava Laurence furioso. — Eu sei que foi você, só não tinha como provar, foi por isso que nunca o delatei e também porque fiquei com medo de você. — Acrescentou Laurence.
— O que é você? Diga-me, que tipo de monstro? — Arrematou Laurence.
— Olha, eu não vim aqui para isso, Laurence. Vim porque sei que você está doente e que não tem muito tempo de vida, então estou aqui para me despedir de você. — Disse Arthur.
— E tem outra coisa, disse Laurence, como a foto de nós dois veio parar aqui? Tenho certeza de que foi você quem ficou com ela. Disse Laurence.
— Quando você disse a outro colega de classe que iria desistir do curso, num certo dia eu a levei até sua casa, disse a sua mãe que era uma surpresa e para que ela a guardasse em seu álbum, pois você iria ficar feliz quando a visse, já que iria sair da USP, e sua mãe ficou feliz com a recordação e aceitou a foto, esclareceu Arthur.
— Pelo jeito você demorou muitos anos para abrir seu álbum de fotos. Acrescentou Arthur. — Eu não sou um monstro Laurence, não gosto que me chamem assim, disse Arthur.
— Mas não tem outra explicação para defini-lo, disse Laurence. Você chegou a matar novamente? Não li mais nada nos jornais, perguntou Laurence.
Arthur então deu uma gargalhada e voltou-se a Laurence com uma voz diferente.
— É claro, como você acha que estou com essa aparência jovem até hoje? — Disse ele. — Depois daquele incidente na USP, comecei a tomar mais cuidado e não deixar os corpos aparecerem, disse Arthur.
— Oh, meu Deus! — Quantos mais, Arthur?
— Já chega disso, de querer saber mais sobre a minha vida, falou raivosamente Arthur, deixando-se avermelhar os olhos.
Laurence lembrou-se daquela aparência e ficou em silêncio, pois sabia o que viria depois.
Arthur foi se acalmando e se recompondo. — Laurence, meu amigo, depois de todos esses anos estou feliz em vê-lo, porque eu sempre te considerei. Eu sempre desconfiei que você sabia dos incidentes, mas como não contou a ninguém, fiquei agradecido. — Disse Arthur. — Naquela noite do bêbado, ao levantar-me, senti o seu cheiro e sabia que você estava por perto e que acompanhara tudo. Deixei para lá. — Completou Arthur.
— Digo que as mortes foram necessárias, e nada mais. — Esclareceu Arthur.
E Laurence estava boquiaberto e sem saber o que dizer.
— Então, porque me poupou? — Questionou Laurence.
— Laurence, tenho esse afeto por você porque eu me lembro de uma pessoa muito especial que apareceu em minha vida, há muitos anos atrás, ele foi um amigo leal e dedicado e por você ser parecido com ele, sempre o considerei, acrescentou Arthur.
— Nada mais posso contar-lhe, pois vim até aqui somente para me despedir e não para me redimir ou falar sobre o que aconteceu, finalizou Arthur.
— Adeus amigo. Arthur levantou-se foi até Laurence o abraçou e foi embora.
Laurence continuou sentado sem forças. Naquele resto de tarde ele pensou em tanta coisa, tentou entender o que Arthur havia contado-lhe, mas nada fazia sentido. À noite chegou e Laurence permanecia imóvel no sofá da sala e sua cabeça ainda se remoia.
Naquela noite Laurence não se sentiu bem, mas não chamou a enfermeira, sabia que sua hora chegara e aguardou.
Antes de partir para o outro mundo, a imagem de Arthur veio pela última vez em sua mente, mas desta vez Laurence ficou aliviado, pois sabia que Arthur, mesmo sem saber o que era, fora o único amigo em toda a sua vida, pois todos desistiram dele ao decorrer dos anos.
E assim, Laurence fechou seus olhos para sempre. 
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Sexta-feira Treze!
                                  
        Laura sabia que o dia não seria muito bom para ela, pois hoje é sexta-feira treze!
Extremamente supersticiosa, Laura era daquelas pessoas ligadas a crendices populares das mais diversas. Não passava em baixo de escada, não chegava perto de gato preto por causa do mau agouro e por aí afora.
        E hoje ela sabia que seria mais um dia em que deveria se preocupar até para atravessar uma rua!
        E assim a moça tomou as precauções devidas para poder não faltar ao trabalho. Sim, porque da última vez que calhou 13 numa sexta, Laura telefonou ao serviço e disse que estava doente, isso só porque leu no horóscopo logo cedo, que seu signo estaria em perigo por causa da data. E assim, ela não trabalhou naquela sexta-feira 13. O que dizer de pessoas assim? Nada, pois são figuras raras e necessárias ao nosso folclore!
         — Meu Deus, hoje é sexta-feira treze! — Exclamou logo cedo Laura, ao olhar, religiosamente na folhinha, o dia da semana.
A moça, para não perder o costume, foi consultar o “seu oráculo”, o horóscopo pela internet.
Que bom, hoje, apesar do dia azarento, não acontecerá nada de diferente, e está escrito para eu não me preocupar  com animais. Lia em voz alta o signo.
Apressou-se para não chegar atrasada e conseguiu chegar ao serviço no horário.
Já era noite quando a jovem conseguiu sair do trabalho e retornar a casa. Desceu no ponto e foi caminhando. Estava uma noite fria e com chuvisco e a rua completamente deserta.
Estranho não ter ninguém na rua! Pensou Laura, já engolindo em seco com a situação. Ela tentou apressar o passo quando, ao virar a esquina, se deparou com um gato preto na calçada. O bicho ficou parado e olhando para ela. Era um gato grande e gordo e os olhos verdes a fitavam a cada passo.
Laura observou que o bichano a seguia com os olhos.
Não posso continuar nesta calçada, não conseguirei passar ao lado dele, pois sei que ele poderá me atacar! Pensava Laura, que já estava desesperada.
Mas li que não me preocupasse com animais, mas justo um gato preto? O horóscopo nunca me deixou na mão! Tentava Laura, com todas as suas forças, ignorar o pobre animal.
Ao atravessar a rua, Laura olhou para o outro lado e viu que o gato atravessou também.
Ela apressou o passo e o gato começou a segui-la. Laura mal conseguia respirar de tanto nervoso e o gato vinha calmamente atrás dela. Desesperada, atravessou a rua novamente e, para sua surpresa, o bicho também.
Laura tentou correr, mas sem forças devido ao nervosismo, não conseguiu. Apressou ainda mais o passo e o gato continuava firme seguindo-a.
Laura não acreditava que sua casa ficasse assim tão longe do ponto de ônibus!
De repente, ao virar por mais uma esquina, Laura se deparou com um homem, que vestido completamente de preto, caminhava pela rua.
— Ei moça, você quase me atropelou, sorriu o jovem para ela, após segurá-la pelo braço. Por que tanta pressa? Perguntou ele.
— É que tem um gato me seguindo! Disse ela ao homem.
— Como é que é? Perguntou ele, com um sorrisinho de deboche.
— Me ajude, por favor, implorou ela ao homem!
E o gato parou diante deles. O bicho encarou o jovem e seus olhos verdes ficaram ainda maiores ao avistar o rapaz. O gato mudou de fisionomia e rapidamente, avançou no jovem, furioso.
Laura gritou de susto e medo e saiu correndo.
O homem tentou se desvencilhar do animal, que estava grudado em sua calça a mordê-lo.
Maldito gato, coitado do rapaz! Chorava Laura, enquanto conseguiu correr até sua casa.  
Ao abrir o portão de casa, ela escutou um miado alto e estridente e sabia que o homem havia enxotado o bicho.
Graças que aquele homem pegou o gato, ainda bem. Pensava ela e entrou em casa.
Laura tomou um banho e foi preparar o jantar, pois morava sozinha. Cansada, lavou a louça rápido porque queria dormir.
A moça começou a sentir uma fragância agradável de flores pela casa.
Nisso, alguém toca a campainha e Laura vai até o portão. Ao chegar perto, vê que era o rapaz, estava com a roupa toda surrada e rasgada e ensanguentado, pois brigara com o gato. O rapaz mal conseguia ficar em pé sem se apoiar.
— Meu Deus, exclamou Laura horrorizada ao ver o estado do homem, o gato fez tudo isso em você? Perguntou a moça.
— Por favor, entre, disse Laura ao estranho, que a segurou no braço para se apoiar.
A jovem sentou o homem em uma cadeira e foi buscar curativos. Após, chamaria um táxi para o jovem.
Ao retornar com a maleta de primeiros socorros, o homem não estava mais sentado onde o deixara.
Laura começou olhar pela casa, abriu a porta para ver se via o homem indo embora, mas nada, desaparecera. Nem sinal dele.
Vou chamar a polícia, pois ele pode estar no quarto. Como sou idiota, e se for um ladrão? Questionava-se.
Nisso, ao pegar o telefone, Laura vê um vulto se aproximar dela. Assustada, ela deixa o telefone cair de suas mãos e corre para se trancar no quarto.
Entra correndo e tranca a porta do cômodo. Gritando, ela diz que com o celular chamou a polícia.
Nisso, escuta um barulho vindo do telhado. Assustada e tremendo muito, Laura se assusta ao ver que o homem estava na janela, pois descera do telhado até o quarto. Ele entra e vem em sua direção.
— Psiu, não precisa gritar, eu não vou machucá-la disse o rapaz, que estava completamente revigorado e os arranhões haviam sumido de seu rosto.
O homem se aproxima de Laura e a seduz com o olhar. A moça estava completamente hipnotizada.
— Foi você que me convidou a entrar, disse ele baixinho, sussurrando ao ouvido de Laura e a beijou nos lábios. Quando estava com a boca perto de seu pescoço, Laura dá um suspiro forte, e molhada de suor, acorda com o despertador.
— Que sonho horrível, meu Deus! Mas ainda bem que foi só um pesadelo! Dizia Laura a si mesma.
Tomou um banho correndo para o trabalho e saiu de casa.
Ao caminhar até o ponto de ônibus, não se sentiu bem e retornou para casa. Febril, Laura dormiu o dia inteiro.
À noite, Laura sentia-se melhor.
Tomou um banho para relaxar. Foi ao espelho para pentear-se. Laura deixou a escova cair de suas mãos! Seus olhos estavam diferentes e avermelhados.
Laura se afastou. Encostada na parede, viu que sua imagem ia, lentamente, desaparecendo do espelho, até sumir por completo.
No portão de casa, escutou um miado. Da janela, viu que o gato preto estava a sua espera.
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         Senhor Ignácio                

Era manhã de segunda-feira, do ano de 1960, mais uma semana se iniciava para completar mais um mês na vida do senhor Ignácio, um lavrador de 65 anos de idade, conhecedor da terra, do ar e do ser humano.
Senhor Ignácio, como era denominado pelos habitantes de uma pequena cidade do interior de São Paulo, vivera toda a sua vida no mesmo local, sem interesse em conhecer, pelo menos, a Capital Paulista. O homem residia tranquilamente em sua terra, arada e cultivada com suas próprias mãos e também de sua saudosa esposa, que morrera há quase cinco anos. A esposa era bem mais velha que ele.
Acostumado ao sol forte e à chuva, o homem não temia nada e nunca fez corpo mole para o trabalho, começando cedo no campo. Vivia em uma simples chácara, mas rica em solo, pois tudo o que ele plantava, mesmo não sendo da região, era cultivado em abundância. Por isso, os moradores diziam que o senhor Ignácio tinha “mãos abençoadas”.
Aos domingos, a rotina de Ignácio era a mesma. Acordava cedo, tomava café, e partia para a missa das sete; depois para a cidade vizinha, para levar frutas e verduras frescas a um velho amigo, que tinha um pequeno café na estrada.
E assim prosseguia a vida do senhor Ignácio, cheia de rotinas e afazeres.
Era um domingo ensolarado de abril e Ignácio prosseguia na estrada até o café de seu amigo Hugo, que tinha a mesma idade e também viúvo.
Conduzia lentamente a sua charrete - sim, esse era o único dia em que ele gostava de passear com ela, pois durante a semana dirigia o pequeno caminhão  - e de repente, o tempo foi se modificando e o céu ficou acinzentado. Ignácio sentiu uma dor forte na garganta, e começou a sufocar. Encostou a charrete na estrada e começou a massagear o peito até que o ar novamente tomasse conta de seus pulmões. Respirou fundo e esperou até que seus sentidos recobrassem novamente.
O que é isso? Pensou Ignácio olhando para o céu e vendo que o sol brilhava novamente. Algo de ruim aconteceu. Indagou o velho, que tomou as rédeas e partiu para a estrada.
Chegou à cafeteria. Parou a charrete na lateral do café, como de costume, na sombra, para que seu animal ficasse a vontade, mas o cavalo não parecia bem, agitado e com um semblante estranho.  Ignácio acariciou e acalmou o pobre bicho e caminhou lentamente até a porta do estabelecimento, que se encontrava fechada.
Estranho Hugo ainda não ter aberto o comércio. Pensativo estava Ignácio, antes de tentar entrar.
Ao tocar a maçaneta da porta, tomou um choque e sentiu uma leve tontura, mesmo assim, abriu-a deixando escancarada, como deveria estar.
Ao entrar, olhou ao redor e todas as janelas também estavam fechadas. Ele teve certeza de que algo acontecera. Estranho, será que Hugo ficou doente? Pensava o pobre amigo.
Caminhou poucos metros e a porta da rua se fechou, sozinha.
Ignácio não olhou para trás, apenas continuou caminhando lentamente.
O local estava na penumbra.
A cada passo lento, Ignácio lembrava-se do amigo Hugo, do sorriso feliz todos os domingos ao vê-lo e do abraço saudoso ao reencontrá-lo. Em sua mente, os bons momentos e as melhores lembranças da vida em que passara com Hugo. Amigos da juventude faziam quase tudo juntos. Desde a viuvez de ambos, Ignácio passava os domingos no café do amigo, e juntos, superavam a falta das esposas.
Ao caminhar as recordações voltaram e também a mocidade de outrora e isso deu forças a Ignácio.
        O ar do ambiente estava com um cheiro diferente. Não era dos produtos que Hugo limpava o chão, e sim um odor adocicado, como um perfume de mulher. Era algo que o deixava um pouco atordoado e a cada respiração, o perfume parecia querer dominá-lo!
Nisso, Ignácio começou a escutar vozes que vinham de algum lugar, estavam distantes, do alto, mas docemente as vozes femininas falavam com ele. — Mais um para a ceia! – Sussurrava alguém.
— Ele entrou de livre e espontânea vontade. Nem precisou de convite. — Falava bem baixinho outra voz de mulher.
Ignácio sente seu coração bater mais forte, o sangue a alvoroçar-lhe as veias, o corpo quente, e a cabeça a latejar  sensações de prazer. Sentimento que há muito tempo não tinha.
Ignácio para de caminhar por uns instantes e se recompõe, enrijece o corpo e limpa a mente.
Continua a caminhada lentamente até o balcão. Chegando, chama por Hugo.
Ao invés de se aproximar o amigo, vem em sua direção um homem alto, jovem, bem vestido, cabelos aos ombros, de uma beleza nunca vista por aquelas terras, parecia um lorde, um estrangeiro.
O homem para em frente a senhor Ignácio e fita-lhe nos olhos.
— Onde está o meu amigo Hugo? — Pergunta Ignácio ao jovem.
— Ele não estava se sentindo bem e foi embora. — Disse-lhe o estranho.    
— Quem é você que Hugo nunca mencionou? De onde veio? Qual o intuito de sua vinda aqui?
— Quantas perguntas, nossa! Indagou o homem, com um olhar sarcástico. — Noto que sua aparência ficou mais jovem do que quando entrou, disse o estrangeiro a Ignácio. Quem é você? — Perguntou o jovem estranho fitando ainda mais o rosto do velho.
— Eu sou o Ignácio, o melhor amigo de Hugo, aliás, nos consideramos irmãos! - Respondeu o pobre senhor.
E as vozes não paravam de sussurrar e de gemer, aos ouvidos de Ignácio, mas agora ele não dava mais importância.
— Quem mais está com você? — Perguntou o velhote ao belo jovem.
— Meu grupo de amigos. — Respondeu o rapaz. — Nós também somos irmãos... de sangue. — Disse-lhe o estranho.
Pelo olhar e falar do homem, Ignácio percebeu que não era boa coisa, e onde estariam os outros? Pensava o velho.
Nisso, um a um o grupo foi se chegando e de repente, estavam todos atrás do balcão. Olhavam para Ignácio.
Fitando-os, o velho entendeu que aquelas pessoas, que não se sabia de onde vieram e nem para quê, deram fim à vida do querido amigo Hugo.
Ignácio sabia que aquela gente faria com ele o mesmo, ele só não sabia o que havia acontecido.
— Então esses são os seus amigos? — Perguntou o velho ao rapaz.
— Sim, são eles. — Respondeu o homem, que não permitiu que ninguém falasse com Ignácio.
Mesmo sem ver os rostos nitidamente por causa da pouca luminosidade do local, Ignácio pode senti-los verdadeiramente.
De formas arrepiantes, tinham caninos enormes e pontiagudos, sobressalentes em bocas entre abertas.
— Há, agora compreendi o que vocês fizeram com Hugo. – Disse-lhes o velhote, encarando aqueles seres inumanos.
Ignácio, sob o olhar do grupo, sentia pulsar sua jugular e sabia que não tinha muito tempo.
Ignácio então fechou os olhos e deu alguns passos para trás.
O grupo o observava, aguardando ordens do chefe.
Nisso, lentamente Ignácio elevou suas mãos ao céu e um clarão, como um raio de sol, iluminou o ambiente sob o seu comando.
Ignácio virou-se e lentamente foi se desvencilhando do balcão, calmamente caminhando até a porta de entrada do café.
Chegando, abriu a porta e a fechou, sem olhar para trás. Ignácio foi até a sua charrete, passou a mão na cabeça do seu cavalo, subiu e sempre calmo, tomou o rumo da estrada, de volta para casa.
Sem olhar, Ignácio pode sentir e ouvir os terríveis gritos vindos do café, o grupo inteiro suplicava, enquanto o fogo tomava conta do lugar. Trancados na casa, o bando nada pode fazer e o fogo queimou até o local ficar completamente destruído.
No caminho, Ignácio não pensava em nada. Suspirou e agradeceu a Deus por mais um dia de vida. 
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Dia dos Namorados

A moça ao abrir a porta de sua casa se deparou com um lindo buquê de flores. No cartão: quer sair comigo hoje à noite?
Radiante a moça pega o buquê e o deixa em um vaso em cima da mesa da sala.
A felicidade era tanta em saber que tinha, realmente, alguém interessado por ela.
Paula já tinha vinte e poucos anos e nunca teve um namorado, não sabia o que era amar. Tímida, ela nunca chegava perto dos rapazes e nem olhava para eles.
Seus sonhos era amar e ser amada, mas quem?
Agora ela tinha um motivo, um estímulo, alguém estava interessado por ela. Mas quem seria?
A pergunta ficou remoendo-lhe o pensamento e a alma o dia inteiro. Quem seria o príncipe encantado que se interessara por ela?
No cartão, apenas a mensagem. Então como ela poderia sair e conhecê-lo se ele não deixou nome e nem telefone?
O dia inteiro no serviço foi de questionamentos e um só pensamento: quem será?
Paula olhava discretamente para todos os solteiros do serviço para saber se era alguém de lá que estava interessado por ela.
Há, o Renato certa vez me chamou para tomar um lanche, será que é ele?
E assim o dia passou rápido.
Paula nem se deu conta, mas já estava no fim do expediente e nenhum dos colegas de serviço a tratou diferente.
A moça pegou o ônibus e voltou para sua casa.
Acho que foi uma piada de mau gosto, uma pegadinha! — Pensava Paula durante a viagem até sua residência.
À noite chegou rápido. Paula andava pela casa de um lado para o outro olhando para o relógio cuco, que a deixava mais nervosa a cada badalada.
Já eram quase oito da noite e nem um sinal do suposto interessado.
Paula estava desgostosa e triste porque o dia estava terminando e a pessoa das flores não apareceu.
A moça colocou seu pijama e foi deitar-se, desiludida.
Mal pegou no sono e a campainha toca.
Paula coloca um roupão e desce para atender.
Crente que era a mãe que esquecera a chave mais uma vez, Paula abre a porta. Para sua surpresa, um homem alto, moreno e bem vestido abre um sorriso ao vê-la. Ele não diz nada e fica olhando para Paula.
— O que quer? — Diz Paula ao estranho, sem dar-lhe importância.
— Eu vim vê-la, não recebeu minhas flores e bilhete? — Responde o homem, que deveria ter uns 30 anos de idade.
         Sem reação alguma e com cara de espanto, Paula faz um sinal para ele entrar.
         — Como não tive mais retorno daquele bilhete, pensei que fosse uma brincadeira. — Disse a moça, feliz da vida em ver que ele era real.
— Você não acreditou, não é? Achou que minha mensagem não fosse verdadeira. — Disse o rapaz.
— Mas quem é você? Porque está interessado em mim? — Dizia Paula.
— Eu sou um colega seu de colégio. Bem, colega é força de expressão, pois nunca estudamos juntos, mas eu sempre te vi nas horas do intervalo. Você passava perto de mim com sua amiguinha e eu a observava o intervalo inteiro. Depois crescemos e nos mudamos daquela escola. Cada um foi para seu lado e nunca mais te vi.
— Não compreendo, porque nunca falou comigo? — Falava Paula, sem uma única vez se lembrar dele.
— É que você passava por mim, mas nunca existi para você. Mas hoje estou aqui, tomei coragem e vim me declarar. — Acrescentou o homem.
— Bem, eu nem sei o que dizer, disse Paula ao rapaz.
— Não diga nada, vá tirar o pijama, colocar uma roupa e vamos sair para nos conhecermos, afinal, hoje é dia dos namorados, disse o jovem.
Paula, radiante, subiu as escadas e foi se arrumar para o encontro, o primeiro de sua vida naqueles anos todos.
Sorridente e linda a moça saiu com o pretendente e aquele foi o dia mais inesquecível e feliz de sua vida.
A felicidade, muitas vezes, pode estar ao seu lado.  

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A Praga

 “O Planeta Terra desde a sua existência tem sido abarcado de muitas profecias. Profetas de todos os tipos apareceram de tempos em tempos tentando concretizar um fim para o mundo, porque tudo o que começa acaba um dia e uma nova realidade está para surgir”.  

O fim do mundo foi anunciado desde os tempos bíblicos pelo apóstolo São João, pelo médico profeta Nostradamus e por tantos outros.
O ano de 2012 chegou e se foi e com ele o alívio de que as Profecias Maias não se concretizaram e o povo do mundo inteiro festejou 2013 aliviado.
...
Chegamos ao ano de 2150, e o mundo estava completamente diferente de seu começo. Gradativamente a terra transformara-se num planeta cinza pela poluição e seus recursos naturais já haviam se esgotado, por sua má utilização. Poucos animais restavam, os que ainda viviam eram únicos de sua espécie e outros, desapareceram, assim como o combustível fóssil. 
Não havia mais guerra no mundo, porque sobreviver já era uma batalha.
Os habitantes se adequaram de todas as formas possíveis e os que não conseguiram foram sucumbidos por si próprios, reduzindo a população do planeta consideravelmente. Era a seleção natural prevista por Darwin.
Desenhados e esculpidos à forma humana, os robôs eram agora os novos donos das ruas.
Eles vinham sendo aperfeiçoados pelo homem desde o século XIX, chegando a sua apoteose em inteligência e organização demasiadamente perfeitas, e num intelecto que se encaixava muito bem à realidade humana.
Não só para servir ao homem os seres cibernéticos foram criados, mas também para trabalhar em planetas colônias da terra. Eram levados para mundos distantes para cavar e retirar metais e urânio, substitutos dos combustíveis fósseis, e também para produzirem alimentos que não eram mais possíveis na terra. Os robôs quando retornavam destes serviços depois de anos eram exterminados pelo desgaste da máquina.
A sociedade dos robôs, então, começou a ser reduzida.
Diferente do homem os cibernéticos eram unidos e preocupavam-se uns com os outros e com o bem coletivo. Em pouco tempo foi escolhido um líder entre eles. Um ser extraordinariamente evoluído e que foi capaz de unir todos os robôs da terra com uma força inacreditável. Mensagens eram enviadas diariamente por uma frequência estabelecida, assim, os homens não conseguiam codificá-las e o exército dos cibernéticos foi estabelecido. O plano era sucinto e infalível.
Estávamos em 22 de dezembro de 2160 e o calor atingia todo o globo. O consumo dos equipamentos refrigeradores estava no limite e, de repente, tudo cessou.

A luz se apagou completamente. Eu e minha mulher nos distanciamos da janela porque naves despencavam completamente sem controles e o estrondo foi de arrepiar. Os equipamentos pararam de funcionar. Nas ruas, pessoas feridas gritando.
Não sabíamos o que estava acontecendo.
— Pai, o que é isso? — Pergunta meu filho de sete anos tremendo de medo.
— Não tenho a mínima ideia, vamos manter a calma e aguardar. — Respondi sem deixar transparecer o meu pavor.
Essa situação ficou por quatro horas. Já era noite quando a energia voltou. Porém, os equipamentos não. De repente, somente a tela interativa de comunicação de um dos cômodos ligou. Diferente da programação que estávamos acostumados a ver, um robô gigantesco apareceu na tela para uma mensagem.
— Seres humanos do Planeta Terra, eu serei breve. — Iniciou o discurso o robô líder. — Como consequência por todo o mal ao mundo e a nós cibernéticos que vocês causaram, estamos unidos e queremos que vocês deixem o planeta. De agora em diante estamos no comando e vocês terão de partir. Peguem suas naves individuais, coletivas e deixem a terra. Damos um prazo de 30 dias para que todos possam partir. Aqueles que não cumprirem, serão exterminados. — finalizou o líder. E a tela desligou-se novamente.
Os dias seguintes ao episódio foram de caos total. Batalhões dos exércitos de todas as nações se uniram contra os robôs, que mesmo reduzidos, eram superiores à força humana. Estávamos perdendo a guerra e os dias passando rápido. O prazo estava chegando ao fim.
Muitos humanos deixaram de lutar, pegaram seus pertences e naves e partiram para planetas colônias. Eu fiz a mesma coisa com minha família.
...
         Passaram-se 30 anos desde a expulsão de nosso planeta mãe e não mais retornamos. A saudade e a lembrança de nossa terra natal estavam mais afloradas nos últimos tempos.
Vivemos no planeta Plutão, que faz parte do nosso sistema solar. Aqui é um lugar frio e não tem muito a oferecer. Batalhamos arduamente por nosso alimento e necessidades; é como se estivéssemos aprisionados para sempre neste mundo hostil.
         Esse pensamento era comum entre todos e meu melhor amigo resolveu ir ter na Terra. Depois de semanas viajando ele apareceu, finalmente, na tela interativa.
— Amigos, nossa, nem tenho palavras para descrever o que vejo aqui. — Roger falava e chorava ao mesmo tempo, e aos fundos via-se um mundo novo!
— É inacreditável que seja o nosso planeta. Vocês precisam vir, eu e meu grupo fomos muito bem recepcionados pelos seres cibernéticos, que estão em paz agora. — Dizia Roger.
Ele descrevia o que via e falava que não retornaria mais, pois a Terra era seu lugar. Após esse episódio ele não se comunicou mais conosco. Entendemos que estava bem.
Depois de um ano sem notícias de Roger e de outras famílias que também foram para lá, resolvemos partir.
Demos nosso último adeus ao planeta gelado, pegamos nossas provisões e pertences e fomos para a terra.
Viajávamos há quatro semanas quando a turbulência da proximidade da atmosfera do planeta nos fez acordar.
Por um momento não acreditávamos no que víamos. A Terra estava azul novamente! Entramos na atmosfera e ficamos sobrevoando o planeta - reluzente como no início dos tempos.
As florestas reapareceram. Cachoeiras com águas límpidas. Pássaros voando e flores desabrochando. Tudo aquilo era milagre! Melhor dizendo, um trabalho contínuo e com muito esforço feito pelos robôs, que demoraram mais de 20 anos até que o planeta voltasse a ser o que era antes da habitação do homem.
Pousamos a nave no comando do líder dos robôs. Homens cibernéticos vieram nos recepcionar. Não estavam armados e foram gentis conosco, como se quisessem se redimir.
— Sejam bem-vindos, disse o líder, ao se aproximar de nós. — Vocês serão levados para uma moradia muito bem localizada, para que aproveitem melhor sua estadia, falava o líder dos robôs.
— Um amigo veio para cá há um ano e perdemos o contato. — Disse-lhe, desconfiado do fato.
— Não se preocupe que ele está bem, você vai ver, disse o líder. — Podem ficar sossegados que logo encontrarão seu amigo feliz da vida por aí.
Nisso, outra nave pousava no local e avistamos mais uma se aproximando.
Fiquei contente em saber que os terráqueos enfim retornavam ao berço natal.
Eu e minha família nos despedimos dos robôs e partimos para a moradia designada.
— É sábio isso que estamos fazendo com essa gente? — disse um seguidor ao líder robô — Eles mal sabem que têm pouco tempo aqui, até o vírus se manifestar.
— Sábio não é, mas não podemos deixar que os humanos voltem a destruir o planeta, falava o líder. A destruição está no sangue deles, e a terra não pode sofrer novamente por tudo o que passou. Eles não merecem estar aqui. O ser humano é uma praga! — Retrucou o robô líder a seu seguidor.
As pessoas, contudo, seguiam para suas moradias felizes, sem desconfiarem de nada do que viria pela frente e assim puderam vivenciar seus últimos momentos no planeta Terra.
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Noite de Halloween


Era sexta-feira dia 31 de outubro, Dia de Halloween e a rua estava cheia de crianças fantasiadas pedindo doces. As mães com pratinhos de quitutes e chapéus de bruxa na cabeça brincavam junto com os filhos.
Eu caminhava lentamente e assistia a tudo, porém, não comemorava porque estava triste.
Sentei-me num banco e com uma visão panorâmica, pude acompanhar a festa que acontecia na pequena rua que estava fechada para o trânsito.
Achei muito legal tudo aquilo, pois nunca havia presenciado uma festa do estilo americano aqui no Brasil e num bairro popular.
Acompanhava a comemoração quando um homem sentou-se a meu lado. Ele estava vestido de preto, uma roupa elegante e não trajava nenhum adereço relacionado à data.
Não conseguia ver o seu rosto, que se escondia na escuridão da noite. Apenas, de relance, via-se a pele bem branca.
— Você está gostando da festa? — Pergunta o homem misterioso, com uma voz maravilhosa e máscula.
— Sim. — Disse eu a ele gaguejando e envergonhada.
— Você mora aqui no bairro? Nunca te vi andando por aqui. — Questionei.  
— Não, sou de outro lugar. Aliás, sou de outro país também. — Disse o homem, que não tinha sotaque conhecido e falava perfeitamente o português.
Quando eu ia perguntar de onde era, o homem virou-se e me perguntou se eu queria caminhar com ele.
É claro que aceitei. Nos levantamos e começamos a passar por todos até sairmos da rua onde acontecia a festa.
Já estávamos longe quando ele pegou na minha mão. Eu fiquei com o coração apertado, que parecia sair pela boca.
Nossa, eu não sou nada disso e esse belo homem que agora vejo olhos azuis e uma barba a fazer que emolduram o rosto magnífico me dando bola!
E a moça caminhava satisfeita com o homem que mal havia conhecido e que lhe dava atenção além de seus sonhos.
Ela era uma jovem retraída por ser sempre a chacota da turma e desta forma estava acostumada a ficar só. Tinha duas amigas que também não eram populares e assim, o mundo de Rachel era solitário e sem brilho.
Quando já estavam bem longe da casa de Rachel, o homem convidou-a para tomar uma bebida e comer alguma coisa.
A moça não hesitou.
Depois de horas conversando e bebendo, Rachel foi embora com o homem, que a levou para um lugar mais reservado.
Rachel passou uma noite maravilhosa com o belo desconhecido.
No dia seguinte, Rachel estava exausta e com o corpo todo dolorido e não se lembrava de nada.
Depois de dois dias, sensações estranhas começaram a acontecer com a moça e ela a cada dia se sentia mais forte e mais vigorosa e com uma aparência sedutora.
Sem entender, Rachel tinha vontades estranhas e não conseguia mais dormir à noite.
Perambulava pelas ruas à espera do homem sinistro, seu príncipe das trevas que não mais apareceu.
Na escola, tornara-se a mais popular e Rachel, por vingança, maltratava a todos.
Quando chegou novamente a noite de Halloween, Rachel começou a sentir-se estranha. Sem se dar conta, estava com um lindo vestido negro justo e longo, que chamava a atenção por onde passava.
A lua cheia brilhava naquela noite de Halloween e Rachel estava deslumbrante.
Um rapaz solitário e triste sentou-se no banco para apreciar a festa que acontecia na rua interditada.
Rachel sentou-se ao lado do rapaz. Ele, muito tímido, não teve coragem de olhar para ela. Rachel então tomou a iniciativa e perguntou:
— Você está gostando da festa? ...
...
E os dois, de mãos dadas, caminharam lentamente se despedindo da comemoração que acontecia na rua.

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Mistério nas obras da Comgás

Estava quase pegando no sono quando um barulho estrondoso me fez pular da cama. Era um sábado ensolarado do mês de agosto, quase duas horas da tarde. Eu havia trabalhado a noite inteira e então resolvi descansar um pouquinho logo depois do almoço.
Levantei para ver o que era. Olhei na janela e vi muita gente em volta de um buraco.  
Do ângulo em que eu estava não conseguia distinguir quase nada. Voltei para a cama. O sono estava retornando, quando minha mãe me acorda, mais curiosa do que todos lá embaixo.
—Filha, ô filha, vai ver que enorme cratera se formou bem pertinho do prédio! Você, que está trabalhando com isso, não pode perder...
—Trabalhando com isso! O eco estagnou por completo o meu sono. O que ela está querendo dizer? Fui ver.
Chegando perto, abri alas na multidão e vi tratar-se de mais um buraco feito pela empresa Comgás. "Há, é só isso, pensei!". Observando melhor, vi que o buraco não era normal aos que a empresa vem fazendo. Nisso, os operários já tinham chamado o engenheiro que cuida da obra e o mesmo estava a caminho. Juntamente com ele veio um historiador e um arqueólogo da região. O caso tomara outras proporções.
— Vamos deixar a escavação para amanhã, pois logo irá escurecer, afirmou o engenheiro-chefe.
— Ei, senhor, por favor, eu sou estudante de Arqueologia, gostaria muito de participar dessa escavação, pois tenho acompanhado muitos trabalhos aqui em Santos, cidade onde historiadores têm encontrado muita riqueza do século passado e...
— Pois bem, — disse o engenheiro-chefe, — não me oponho, esteja aqui amanhã, às 7 horas.
Antes do horário todos estavam em seus postos e prontos para iniciar a escavação. No local não havia nenhuma tubulação subterrânea de empresas como de telefonia, água ou energia, somente terra. Quase meio-dia já havia se passado e os operários ainda não conseguiam ver o fundo do buraco; a frustração começou a tomar conta de nós.
—Ei pessoal, esperem um pouco, vá com calma gente, parece que estou vendo alguma coisa, tirem um pouco mais de terra, cavem mais devagar, acho que estamos perto! —Afirmou o engenheiro chefe.
Perto do que, pensava eu.
—É, ali, vi também, acho que é um túnel... ainda tem muita areia. Aí, com a pá bem devagar... — repetiu o historiador.
O silêncio tomou conta de todos. Já era quase uma hora da tarde quando finalmente encontramos alguma coisa.
Com o local sem terra o túnel tornara-se visível e aparentava ter 1,70 m de profundidade por 1 metro de largura e era escorado por vigas de madeira. O engenheiro-chefe então organizou a turma de descida e me escalei, mesmo o contrariando. Como os operários traziam todo tipo de equipamento não foi difícil arranjarmos cordas, lanternas, luvas e botas e outros objetos.
Um a um descemos no mais profundo silêncio e tensão, pois não sabíamos o que era aquele túnel no meio de uma calçada e nem para onde ele iria nos levar. Senti uma secura na boca e minhas pernas bambearam.
Começamos a caminhar bem devagar. Na frente ia o engenheiro, depois o historiador, o arqueólogo, eu e dois operários no final. Os dois primeiros homens caminhavam curvados, pois tinham mais de 1,80 m e mal cabiam no buraco, os outros, continuavam sem problemas.
— Tenho acompanhado as escavações lá no Centro Histórico onde raridades têm sido descobertas, mas esse túnel não tem nenhum sentido porque o início da Cidade começou no porto e estamos perto do Orquidário, que fica próximo a praia, — ia falando o historiador. O ar ficava mais escasso.
— Ei pessoal, acho que encontrei alguma coisa, — disse o engenheiro —, que bateu com uma pequena pá numa parede. — Preciso de mais luzes aqui, — gritou o homem.
Quando ele atacou com mais força percebeu que a parede era fina e que poderíamos quebrá-la facilmente. Com muito esforço e espremendo-se em nós um dos funcionários passou a frente da fila e começou a derrubar a parede, que em poucos minutos foi ao chão. Baixada a poeira, pudemos realmente ver o que havia por trás.
Entramos numa sala e sob as luzes das lanternas avistamos vários objetos empoeirados que pareciam antigos; esquecidos num quarto totalmente vedado e cheirando a mofo.
Porém, senti uma energia absurdamente forte no local e meu relógio parou de funcionar, assim como os dos demais da expedição. À penetração do clarão de nossas lanternas o local foi tomando forma e os objetos ganhando vida. A cada utensílio que brilhava, sussurros ecoavam no ambiente que se tornara sombrio. Ouviu-se um grito.
Um dos funcionários, clamando por Deus, saiu pelo túnel afora batendo nas paredes até desfalecer-se. Eu tremia da cabeça aos pés.
De repente um a um dos cálices prateados, athames ou adagas com cabos pretos, bastões, pentáculos, uns de madeira, outros de argila e de metal e espadas, arrumavam-se, sozinhos, voando pela sala.
Nisso um caldeirão preto todo de ferro que minutos atrás estava empoeirado, deslizou, cintilante, e tomou  lugar ao centro. Ao lado dele pentagramas, talismãs, espelhos e demais utensílios do tipo foram decorando o quarto. O local mudou de cenário. Agora estava completamente iluminado e limpo. As paredes tornaram-se vermelhas e pudemos ver símbolos desenhados nelas. No chão, um círculo formou-se parecendo aguardar por alguém... Tanto os homens como eu, boquiabertos, não conseguíamos sair do lugar.
De repente o outro operário que estava desorientado, tirou de dentro de uma caixa de madeira um livro velho e sujo.
—Não mexa em nada, deixa isso aí! — Gritou o engenheiro desesperado. Porém, de nada adiantou, pois ao tocar no livro o homem desfigurou-se por completo e seus cabelos cresceram até a altura dos ombros. Num piscar de olhos, o rapaz estava vestido com uma túnica preta.
Nisso ele caminhou lentamente até onde estavam os objetos e ficou bem no meio deles, como se estivesse em um altar. Já o livro em suas mãos tornara-se novo. Era negro e com letras douradas: Book Of Shadows.
A sala aguardava algum tipo de ritual. O pobre operário também...
Começaram-se as badaladas do sino da igreja que estava acima de nossas cabeças. Era o ... sinal para ele iniciar...
O jovem então se virou em nossa direção e com olhos hipnotizantes, abriu o livro e começou a pronunciar palavras em Inglês.
As luzes da sala começaram a piscar e vultos passaram por nós e foram se aproximando do círculo. Dentro deste, eles assumiram formas humanas. Eram três homens e duas mulheres, todos de branco. Quando eles viraram seus rostos para nós, o historiador não aguentou e caiu desfalecido ao chão; tivera um ataque.
O ritual estava parado e notamos que ainda faltava algo ou alguém. O operário que agora era um deles e conduzia a cerimônia fez um sinal com o bastão em minha direção. Descobri que eu deveria participar. Não sei como não desmaiei quando meus pés começaram a mover-se em direção do círculo. Eu os fincava no chão, o arqueólogo e o engenheiro seguravam meus braços, mas o que me puxava tinha uma força sobrenatural. Quando dei por mim, estava junto deles. Com calafrios e zonza cerrei meus olhos para não ver os rostos das aparições. Com muita calma e suavidade, eles me deram as mãos e ficamos em círculo, que agora estava completo.
De repente a sala começou a ventar fortemente. O vento, que vinha do túnel cresceu em tamanha proporção que o quarto não aguentou a violenta vibração e começou a desmoronar. As criaturas não me largavam.
Vigas, areia e tijolos despencavam. O arqueólogo tentou correr para o túnel, mas este desmoronou e ele ficou soterrado. O engenheiro pegou um pedaço de pau e conseguiu atingir os seres, desfazendo assim o círculo. Caí no chão e antes de desfalecer, ouvi bem de longe o chefe gritar meu nome, depois, apaguei...
...
Três meses depois a jovem estudante de Arqueologia retorna para sua casa. Ela acha estranho ninguém ter ido buscá-la e quando entrou em casa, viu que o apartamento estava vazio.
— Nossa, o que houve? Onde estão os móveis? — Sem entender, a moça caminha pelo apartamento perguntando a si mesma se não havia entrado na casa de algum vizinho.
Andando em direção à janela da sala, vê jogado ao chão um jornal.
— Quais serão as novidades? O jornal me parece velho, está sujo. — Pensava ela.
A moça, estupefata, tenta se amparar ao ler o que estava escrito!
A manchete anunciava a misteriosa morte de seis pessoas que ficaram soterradas no porão da capelinha dos ingleses. A polícia, no entanto, não encontrou mais nada no local.
A estudante se amparou na parede e começou a recordar aquele terrível episódio, lembrando-se de um a um dos profissionais que estavam com ela.
A cada pensamento de um deles, a pessoa desaparecia e assim ela foi recordando todos que estavam no túnel. Quando chegou sua vez, lágrimas desceram de seus olhos e em seu coração, a lembrança da amada mãe sorrindo para ela antes do acontecimento.
Nisso, o jornal vai ao chão planando até cair onde estava.

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A casa sombria



A casa sombria ficava duas quadras de onde eu morava.
Na minha infância foi uma casa que sempre admirei. Aquela imensa casa, diziam, ser mal assombrada, pois coisas estranhas aconteciam à noite.
Era uma propriedade enorme e antiga, mas bem cuidada, sempre limpa, com árvores altas e muito espaço para correr e brincar. Nunca se via ninguém no casarão. Eu, pelo menos, não me lembro de ter visto os moradores.
Falavam os meus amigos que a casa era assombrada porque os moradores foram mortos e enterrados em algum lugar do jardim, então, à noite, os fantasmas andavam pela casa.
Bem, particularmente, acho que os fantasmas deveriam ter o que fazer durante o dia, porque só estavam na casa durante a noite. Não é estranho isso? Dizem sempre que os fantasmas aparecem à noite. Então, será que são vampiros também, além de fantasmas? Sempre me perguntei sobre isso. Bem, enfim, continuamos com os tais acontecimentos.
Quando vi a casa pela primeira vez tinha meus 13 anos e foi numa sexta-feira 13! Arrepiei-me na época, ainda me lembro.
Fiquei parada em frente ao imóvel tentando avistar alguém. Tudo tranquilo, nenhum sinal de ser vivo na casa. Permaneci por alguns minutos na porta, os muros não eram altos, então eu conseguia ver bem o que se passava pelo terreno. Nada de estranho me chamou a atenção. Desisti da história do assombro.
Eis que um dia minhas amigas me tentaram a ir a tal casa. Eu, que sempre gostei de coisas assombrosas, topei. Marcamos que entraríamos a todo custo na casa e para ver os fenômenos que aconteciam, teria que ser quando escurecesse.
O grupo era formado por cinco mocinhas, inventamos uma boa desculpa a nossos pais e fomos para a casa avermelhada, a tal mal assombrada.
— E aí, estamos aqui na porta e não vejo nenhum movimento lá dentro. A casa está às escuras, sinal que não tem ninguém. — Dizia minha amiga Rosa, segura de si.
— Bem, e se os moradores estiverem trabalhando e retornarem agora à noite? — Dizia outra amiga, Pina, com uma voz trêmula.
— Bobagem gente, vamos entrar ou não? — Finalizaram Claudia e Teresa, já sem paciência e nos chamando de medrosas.
Bem, com aperto no coração e mãos geladas, todas nós, as meninas da vilinha onde morávamos, abrimos com facilidade o portão e entramos no terreno.
Bem devagar e todas de mãos dadas, seguimos vistoriando o local, que não tinha nada de estranho. Subimos os degraus bem devagar. Dava para escutar a respiração acelerada de todas.
Eu, na frente, fui abrir a porta. Para minha surpresa, não estava trancada. Parei, mas a minha curiosidade era tanta, que a empurrei escancarando-a. Entramos. Eu era a única que tinha lanterna.
Iluminei o interruptor e acendi as luzes, e não ouvi reclamação de ninguém, pois queríamos ver tudo e com a lanterna não tinha condições.
Andamos pela sala, de grande tamanho, móveis clássicos em madeira, sofás forrados com veludo vermelho, objetos antigos decoravam o ambiente, assim como quadros, muitas pinturas de homens e mulheres, acho que foram os habitantes da casa.
Passamos para o outro cômodo, a sala de leitura, lá, me encantei com a quantidade de livros que estavam na estante que pegava uma parede inteira, até o teto. Na sala pendiam dois lustres e um sofá grande, perto da janela.
A casa estava bem cuidada e limpa. Andávamos na direção da cozinha. Pisávamos em “ovos” para não fazer nenhum barulho, quando Teresa se desequilibra e bate num objeto que cai ao chão. O estrondo fez até meu coração sair pela boca.
Nisso, alguém grita perguntando quem estava ali. Os passos apressados começam a ficar mais nítidos e a voz de mulher com uma fala rouca chega cada vez mais próxima de nós. Alguém descia as escadas apressadamente.
Saímos correndo e vi a mulher que descia as escadas. Era uma senhora, com vestido longo e um avental. Ela gritava, mas eu não conseguia entender mais nada o que falava. Derrubei minha lanterna. A mulher agora berrava. Olhei para trás e vi seu rosto branco, sua boca espumando de raiva, os olhos enormes esbugalhados, ela segurava o vestido e com passos rápidos tentava agarrar uma de nós.
A porta, que deixamos aberta, “voamos” para fora, descendo os degraus “a jato”, abrindo o portão da rua e desaparecendo na escuridão.
Ninguém olhou para trás. Chegamos a nossas casas tão rápido que nem acreditei. Caladas e pálidas como defuntos, permanecemos na porta da vila para o coração voltar ao normal. Nenhuma de nós ousou comentar alguma coisa naquela noite; nos despedimos e cada uma entrou para sua casa.
Nunca mais retornamos ao casarão e até passávamos por outra rua só para não aparecermos na frente do imóvel.
Não soube mais nada sobre a senhora que morava na casa e nem quem era ela. O fato foi desaparecendo aos poucos de nossas vidas, até sumir por completo.
Para mim, a cena sempre ficou em minha mente, pois não sei como acabei ficando com uma cicatriz na perna esquerda, pois não me lembro de ter me cortado em nada e ainda hoje, ao dormir, escuto os gritos da velha da casa sombria.
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Cemitério


A noite foi chegando e o rapaz já se preparava para mais uma noitada.
O jovem, que deveria ter uns 19 anos, pegava sua mochila e o pé de cabra e partira para mais um roubo.
Calmamente ele caminhava pelas ruas para sua nova empreitada no cemitério central. Não tinha pressa, pois quanto mais tarde chegasse a seu destino melhor seria para que ninguém o visse entrar.
Passou na porta do cemitério observando e estava tudo calmo pela vizinhança. Aquela seria uma noite de sorte para o rapaz. 
Mesmo assim, ele preferiu entrar no cemitério pelos fundos, para não chamar a atenção de quem passasse naquela hora.
Conseguiu pular o muro com a maior facilidade. Caminhava por entre os túmulos em busca de algo fácil de roubar e de carregar.
Já tinha conseguido duas placas de bronze quando viu um vulto passar correndo.
        Correu atrás por entre os túmulos para não ser visto, mas o vulto havia desaparecido. Cheio de pavor, pegou a mochila e resolveu encerrar a noitada.
        No mesmo horário na noite seguinte, lá estava ele pulando o muro do cemitério.
        Quando o rapaz já havia terminado de pegar mais alguns objetos das campas, viu o vulto passar novamente. Era uma mulher, alta e com roupas claras. O jovem não teve tempo de se esconder, pois a moça apareceu bem na sua frente. O rapaz, com o coração à boca, ficou paralisado de medo.
— Você está aqui toda noite roubando. — Dizia a moça de olhar profundo para o rapaz.
O jovem engolindo em seco, respondeu. — Venho porque preciso.
Ele não deixou que a moça falasse, pois saiu correndo.
Pelo caminho foi pensando na aparição, que veio para questioná-lo e interrogá-lo, como se fosse um chefe de polícia. Acho a situação muito estranha e resolveu deixar passar dois dias para um novo roubo.
Novamente o ritual do assalto ao cemitério e o jovem estava lá com sua mochila.
Ele nem teve tempo de procurar por nada, pois a moça apareceu novamente intimando.
— Você aqui novamente? Ainda não se cansou de roubar? — Ia falando ela, cercando o rapaz.
— Chega, gritou o rapaz. O que você quer? Por que não me deixa em paz? Porque cismou comigo? — Falava ele sem paciência e já sem medo algum.
— Eu quero que você saiba que isso não é certo, pois você está importunando os mortos e saqueando as campas. — Falava ela, bem impaciente.
        — Além do mais, quero ver se você vai roubar a si próprio. — Disse a moça, desaparecendo.
        Atordoado o rapaz fitou-a, sem nada entender.
— A mulher, vendo a situação, desistiu da discussão. Chegou perto do rapaz e falou-lhe baixinho: jazigo 11, campa 37. Logo após, desapareceu.
O jovem pegou sua mochila e foi embora. No caminho foi relembrando a conversa e não conseguia entender o que ela havia falado. Com o pensamento remoendo, ele resolveu retornar ao cemitério.
Pulando o muro novamente, o rapaz andou pelos corredores a procura do endereço deixado pela moça.
Caminhava devagar com a respiração ofegante pela ansiedade do que viria pela frente.
Seja o que for, eu enfrentarei, pensava ele.
Chegando no jazigo 11, o passo diminuiu. O jovem andando bem devagar, nem precisou procurar pelo número. Ao chegar perto da campa, começou a se lembrar do passado, dos dias de roubo no cemitério, da polícia se aproximando, do tiroteio e de seu último suspiro de vida.
Neste instante, a mochila caiu-lhe dos ombros e o rapaz desapareceu.

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Conto em comemoração ao 
Dia Mundial do Autismo
Nelsinho


Desde o nascimento em 1970, Nelsinho nunca foi bem quisto com a família por ser um menino esquisito. Diferente dos primos de sua idade, Nelsinho sempre fora muito calado, desconcentrado e sem interesse por nada, além de ser também um pouco agressivo.
Nascido de uma família de classe média baixa, Nelsinho não era compreendido por ninguém e ficava horas olhando o vazio, seu eterno companheiro da solidão.
As brigas eram constantes na casa de Nelsinho, até que um dia o pai do menino, sempre acusando a mãe por causa da doença do filho, resolveu ir embora.
— Marisa, não aguento mais você e esse garoto. Você é a única culpada por ele ter nascido assim. É sua culpa. — Falava o pai de Nelson sempre, sem entender a doença do filho.
— Você também é culpado pelo menino ter nascido assim, desequilibrado e doente. Além do mais, você fica falando isso o tempo todo e só piora a situação. — Argumentou, chorando, a mãe do garoto.
— Desta vez é para valer Marisa, vou embora, fique você com ele porque eu não quero mais viver aqui com vocês. — Finalizou Rubens pela última vez, partindo com ódio, e na mais profunda ignorância.
Os anos passaram-se e Marisa, com a ajuda da família, pois o marido nunca mais voltou e ela não soube mais do paradeiro dele, conseguiu com sacrifício sustentar e criar Nelson, agora com 15 anos.
— Marisa, eu sei de um lugar que cuidam de crianças com problemas iguais a de seu filho. — Falou a nova colega de serviço de Marisa, quando viu Nelson pela primeira vez e notou a deficiência do rapaz.
— Neste lugar que estou te falando, eles têm uma atenção especial e mais crianças conseguem interagir com os professores. — Acrescentou a colega.
— Não sei, vou pensar, mas me dê o endereço. — Disse Marisa, enxergando uma possível cura para o filho.
Depois de 20 dias da conversa que tivera com a colega de serviço, Marisa tomou coragem e foi até o endereço fornecido, a tal clínica que Neyde havia falado.
Foi muito bem atendida e explicou toda a sua situação. Marcaram uma hora para que ela levasse o filho para uma avaliação.
No dia combinado, Marisa levou Nelson e a médica-chefe da instituição avaliou o estado mental do rapaz.
— O Nelson já está adolescente, o grau da doença dele não é das mais avançadas, mas ele poderia ter tido uma infância muito melhor e poderia ter aprendido muitas coisas, além dessa violência sofrida. — Falava a médica, triste pelo abandono do pai, da discriminação da família e por todo o mal que a criança sofrera durante sua vida.
Depois de ter começado o tratamento na instituição, Nelsinho foi aos poucos melhorando sua qualidade de vida e se tornando uma pessoa menos agressiva e mais amável.
Hoje Nelson está com 42 anos e vive com sua mãe, que nunca mais se casou depois de ter sido abandonada, e ele tem uma ocupação na clínica ajudando outras pessoas.
Esta é apenas uma história fictícia, mas real para muitas crianças autistas que sofrem, ou sofreram violência como Nelson, resultado da ignorância dos pais, da atenção da família e da falta de procura por locais especializados que tratem do autismo da mesma forma que muitas doenças, pois o pior que existe no mundo é ainda o preconceito.

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O carona

O rapaz viajava sempre de carona. Não tinha medo, pois o que ele não queria era andar de ônibus.
Conhecia as mais diversas pessoas, de todas as idades, gostos e personalidades.
Certa noite, ao sair do serviço muito tarde, apostou voltar para casa pegando a bendita carona.
Um carro escuro parou em frente ao rapaz e abriu o vidro.
— Estou indo em direção ao Centro, você quer carona? — Disse a voz suave vindo de dentro do carro.
— Quero sim, pois acho que não tem mais ônibus. — Respondeu Marcos.
Ao sentar, Marcos ficou maravilhado com o luxo do automóvel, que de fora, parecia um carro comum. O carro tinha um painel maravilhoso cheio de novidades, era perfumado e muito espaçoso.
Os dois homens foram conversando amenidades. O papo estava tranquilo e o motorista andava devagar.  
O homem do carro luxuoso ofereceu uma bebida a Marcos, que aceitou agradecendo pela gentileza.
O homem continuava falando sobre sua vida e dizia-se solitário.
Nisso, Marcos começou a ficar sonolento, suas pálpebras pesavam muito. Ele foi se aconchegando no banco do carro e acabou adormecendo.
Pronto, estava dormindo completamente, num sono profundo.
O homem entrou com o carro na garagem de uma clínica. No estacionamento, vieram ajudá-lo a tirar Marcos do carro.
...

... Marcos acordou num banco de jardim, em uma praça pouco movimentada e não se lembrava de nada, apenas sentia muita dor.
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Criaturas


Trabalhava até tarde no computador quando um grito vindo do apartamento ao lado do meu, ecoa pela janela de minha vizinha.
Levantei-me correndo e fui até a janela verificar o que estava acontecendo.
Ao longe, e com a claridade da lua cheia que ainda brilhava no céu com poucas nuvens, vi algo voando no horizonte.
Pensei que fosse alguma ilusão de ótica ocasionada pelo excesso de computador, então limpei meus olhos para enxergar melhor.
Novamente à janela, vi que se aproximavam, aos milhares, voando em sincronia.
— Que pássaros poderiam estar voando àquela hora? — indaguei, sem entender a revoada que se aproximava.
Estavam chegando mais perto e aí notei que não eram pássaros.
Sem definição para o que via, um medo horrível me fez quase desmaiar quando se aproximaram de meu prédio.
Eram criaturas imensas que voavam em grupo. Os seres não tinham penas no corpo e brilhavam ao luar, tinham caldas enormes e pontiagudas.
Suando frio vi que os seres sobrevoavam, parecia que estavam nos observando.
As criaturas passaram e sumiram no horizonte, deixando para quem as viu medo e terror.
Olhei e vi que algumas pessoas do prédio haviam descido, pois também tinham visto os seres voando. O burburinho chegava até o meu andar.
Por um instante resolvi descer, mas o tempo virou e começou um temporal.
No dia seguinte ao acontecido, fotos dos seres estampavam todos os jornais e entrevistas diversas sobre o assunto tomaram conta de páginas e noticiários de veículos de comunicação no mundo inteiro.
O assunto dos seres voadores perdurou por meses. O que mais deixava as pessoas aflitas era a questão do não saber nada sobre as criaturas, o que queriam de nós, quem eram aqueles seres, de onde vieram. Já estava até cansativo escutar sobre isso, mas a visão daquela noite foi aterradora e marcante por onde passaram.
Eu me tornei uma “fiscal do céu”, pois não tirava mais os olhos da janela. Toda noite ficava horas a observar, sempre com o coração palpitando a milhão.
Os dias foram se passando e não avistamos mais as criaturas. Apesar da calmaria aparente, muita gente que conheço ficou doente com aquilo. Minha melhor amiga tinha sonhos horrendos com as criaturas. Cheia de superstições e crendices, ela foi saber da sorte nas cartas de tarô, que revelaram coisas surpreendentes.
Ao chegar a casa da mulher que lia Tarô, minha amiga Angelina ficou impressiona por ver tanta gente esperando pelo atendimento.
A taróloga chamou por Angelina, que com um frio na barriga pela ansiedade, entrou na sala para saber a sua sorte. Um perfume delicioso vindo de um incenso a fez relaxar.
— Você me não me parece muito bem, está com aparência de muita ansiedade. — ia falando a taróloga, uma mulher alta, magra e cabelos lisos ao pescoço. Ela em nada se parecia com uma pessoa que vê a sorte dos outros.
— É, estou um pouco nervosa, mas já está passando. — Completava minha amiga, que discretamente observava tudo o que havia na sala, amuletos, duendes, fotos indianas e uma porção de bibelôs.
A mulher ia falando sobre o futuro de Angelina, do amor, emprego etc, assuntos dos quais já estavam resolvidos para ela. Angelina não tinha ido para saber sobre os seres voadores.
De repente, a taróloga foi decifrando as últimas cartas dispostas na mesa. Ela parou por um momento, observou o jogo e olhou para Angelina.
— Nossa, até tenho receio de contar-lhe o que vejo aqui, nessas últimas cartas. — Dizia a taróloga.
— Não me esconda nada, por favor, quero saber, mesmo que seja algo horrível. — Falava Angelina, e seus olhos brilhavam pela curiosidade.
— Vejo que algo horrível que está para acontecer. Não consigo saber quando será, mas pela disposição das cartas, está próximo. É algo inexplicável, que deixará morte e destruição. — Falava a mulher das cartas, com ar de desespero e pavor.
Angelina, no entanto, queria saber mais.
— Não estou autorizada a falar mais nada, sinto muito. — Respondeu a taróloga, já desfazendo as cartas dispostas na mesa e acabando com a leitura.
— Por favor, disse Angelina, eu insisto, faça a última leitura das cartas que você não completou.
A mulher acatou o último pedido de Angelina e fez a leitura das cartas.
— O que vejo aqui confirma o que já falei, e complemento que não sobrará muita coisa no planeta. — Isso é tão ruim que eu mal consigo acreditar no que estou lendo. Completou a taróloga.
Angelina foi embora para casa pensativa sobre tudo aquilo que acabara de saber pelas cartas e o medo novamente tomou conta de minha amiga. Eu fiquei também apavorada quando ela me contou. Como não tínhamos nada a fazer, deixamos pra lá.
E assim os dias foram se passando e o Verão terminando. As noites começaram a ficar mais frias e a escurecer mais cedo.
Há quilômetros de distância da Terra, astrônomos da Ilhas Canárias avistaram algo estranho na Lua. Da Espanha, os especialistas convocaram astrônomos, cientistas, biólogos, arqueólogos e tradutores dos Estados Unidos, da Inglaterra e de outros países para uma reunião emergencial, devido a estranha descoberta.
Os cientistas partiram para a ilha de Palma onde se encontra o observatório para a avaliação da descoberta.
Reunidos e observando do telescópio, boquiabertos o grupo de estudiosos viu na Lua, os mesmos seres que há meses sobrevoaram a Terra.
Aproximaram o máximo as lentes do telescópio e lá estavam as criaturas, pousadas em nosso satélite natural. Eram seres imensos, com mais de 15 metros de extensão desde a cabeça até a cauda, tinham bicos, o corpo sem penas, mas todo escamoso e brilhante, asas parecidas com as de dragão das histórias, olhos e garras enormes e eram milhares. Eram criaturas escuras e estavam imóveis, como que aguardando por alguma coisa, um sinal ou uma ordem.
Apavorado, o grupo não conseguia entender o que faziam lá, iriam nos atacar? Estavam nos observando para quê?
Rapidamente o exército do mundo todo ficou de prontidão.
Atacariam ou não os seres pousados na Lua?
Dias e dias os cientistas observavam as criaturas e estas permaneciam na mesma posição.
Os especialistas não tinham uma definição para o ser, pois nada do que já apareceu e viveu na terra semelhava-se ao animal, nem mesmo os monstros criados por escritores e cineastas.
Estava difícil entender a vivência do ser porque não tínhamos parâmetros para aquilo em nenhum momento de nossa vasta história, desde mesmo a pré-história. Nem registro ou fóssil encontrado fora sequer parecido ao que estavam a estudar. Eram criaturas jamais vistas pelos homens.
Os cientistas, mesmo sem respostas, não conseguiram fazer com que os governos esperassem, pois não queriam alarmar a população e muito menos os governantes.
Sendo assim, dos Estados Unidos seriam enviados mísseis de alta potência para acabar com os seres. Não sabiam o que as criaturas queriam, mas ficar esperando seria prudente demais para que o planeta sofresse, caso o fosse.
O dia e a hora para o ataque aos seres já estava programado. A contagem regressiva iria se iniciar em breve. 
Os governantes mundiais sabiam do risco que poderia ocorrer com esse ataque, porém, alguma coisa deveria ser feita.
Das Ilhas Canárias, os seres eram observados, e da lua, nós também.
Os astrônomos ficaram alarmados mais ainda quando viram que o número dos seres havia aumentado, pois mais criaturas se juntaram as que já estavam lá na lua.
Rapidamente os especialistas avisaram as autoridades sobre isso, que sem sombra de dúvida estavam mais confiantes de que nós deveríamos atacar primeiro.
Situação difícil, pois não se sabia se os mísseis seriam eficazes contra as criaturas e se isso não traria complicações para o clima do planeta ou algo semelhante. Na verdade, era um “tiro no escuro”.
Mesmo assim, foi iniciada a contagem regressiva dos mísseis, que deveriam atacar os serem em pelo menos, 12 horas.
No noticiário do mundo todo só se falava do ataque da terra, do envio dos mísseis e as opiniões eram diversas, religiosas, proféticas, violentas, cautelosas etc. Na verdade, o terror da situação fez com que as pessoas se sentissem vulneráveis e desprotegidas em todos os aspectos.
Da Ilha de Palma o monitoramento à lua era constante; e foi quando os astrônomos, exaustos, à meia-noite, deram o alarme de que os seres não estavam mais pousados na lua.
As criaturas haviam desaparecido de lá.
Da Ilha de Palma o monitoramento à lua era constante; e foi quando os astrônomos, exaustos, à meia-noite, deram o alarme de que os seres não estavam mais pousados na lua.
As criaturas haviam desaparecido de lá.
Astrônomos e telescópios do mundo todo miravam a lua, na ânsia de descobrir onde estavam os seres. Em vão, pois não conseguiam vê-los.
No entanto, o maior telescópio conseguiu enxergar os seres numa faixa obscura do universo.
Da amplitude das lentes, viu-se uma criatura maior que todas e na frente, deveria ser o líder, conduzindo o bando que voava sincronizado.
Eles vinham em maior número e suas asas batiam com rapidez. O medo foi tomando conta dos especialistas, que não sabiam o que fazer.
Agora, já eram três na manhã. Em polvorosa, as horas foram se passando.
Os governantes sabiam que os mísseis não encontrariam os seres na lua, tudo foi em vão.
Das lentes do telescópio, as criaturas ficavam mais nítidas, pois se aproximavam cada vez mais da terra. Os seres voavam a grandes velocidades e usavam a atração da força magnética da terra para ajudar no deslocamento. Desta maneira, chegariam mais rápido ainda, bem menos de 12 horas. Deveriam entrar em nossa atmosfera em cerca de 8 ou 9 horas.
Das Ilhas Canárias, onde se encontra o mais potente telescópio, o sol já estava árduo num dia quente de verão.
Nisso, os astrônomos perderam os seres da mira telescópica. As criaturas desapareceram. Os especialistas brindaram com a suposta desistência dos bichos. Eles sumiram, foram embora, pensaram todos.
Do outro lado da terra, ainda noite, as pessoas dormiam despreocupadas.
Era meia-noite de lua cheia e o clima estava ameno.
Os seres atravessaram a atmosfera da terra. Mantinham a mesma velocidade de quando saíram da lua. Em grupo os seres foram avançando e descendo cada vez mais. Eram silenciosos, nem um som se quer os denunciava.
As criaturas voavam sobre as cidades, pois a iluminação era o grande chamariz para aqueles seres.
Um estrondo me fez levantar da cama assustada. Corri para a janela do quarto e mal podia acreditar no que via do edifício em frente ao meu. Segurei-me no batente da janela e permaneci ali no escuro, com medo até de respirar!
As criaturas estão arrebentando as janelas do prédio com as imensas patas. Com a força, estão enfiando as cabeças dentro dos apartamentos e pegando as pessoas com as línguas. Grudadas, imóveis e enroladas nas línguas, as pessoas estão sendo engolidas. Meu Deus, os seres parecem tamanduás arrancando do formigueiro as indefesas formigas!
Mesmo sem muita coragem coloquei a cabeça para fora da janela e vi os monstros voando, aos milhares e sem trégua. Estavam com fome e as luzes acesas atraiam a visão das criaturas.
Foi horrível, explosões, gritos e numa luta sem piedade as pessoas eram devoradas. Os seres famintos atacavam os prédios e quanto mais altos, mais fáceis para eles.
Aquilo era demais para mim. Fui cambaleando e me amparando nas paredes e não consegui mais ficar em pé, caindo ao chão e sem forças para mais nada.
Em toda a parte da terra onde ainda era noite, as criaturas foram destruindo tudo o que viam pela frente em busca de saciar a fome. Fios elétricos foram arrancados com as caudas, telhados destruídos e tudo o mais que atrapalhava o caminho daqueles seres.
Milhares de pessoas foram simplesmente mortas sem chance alguma de defesa. 
O exército tentou em vão, pois as armas não eram páreas para aqueles seres fortes que vieram do espaço.
O mundo jamais passara por um massacre como esse.
Estava clareando quando comecei acordar. Mesmo sem coragem fui até a janela. Não vi mais os seres. Haviam partido deixando um rastro de destruição.
Desci as escadas do prédio e corri para a rua. A cena era de um holocausto, um fim de mundo. Nas ruas carros batidos, fogo, restos de construções e muito sangue e sujeira. Pessoas pediam por socorro desesperadas; outras foram prensadas, mas não vi restos de ninguém pelo chão.
Corri pelas ruas e as cenas eram idênticas. Não tivemos como lutar, mas se pudéssemos também seria uma luta em vão porque as criaturas eram muitas e ninguém conseguiria combatê-las.
Voltei a meu apartamento. Meu prédio nada sofrera por ser pequeno e também porque estavam todos dormindo na hora do ataque.
Acessei o facebook do meu celular e desesperadas, as pessoas diziam que estava anoitecendo do outro lado da terra... 
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Lembranças de Helena


Sabe aquele domingo que você não tem nada a fazer e resolve dar uma volta só para ver o tempo passar? Pois é, foi assim, num dia desses, circulando por São Vicente, quando resolvi entrar na Casa de Martim Afonso para conhecer o local histórico.
A casa estava abrangendo a exposição: “Centenário da Imigração Japonesa”, onde se encontrava réplicas de espadas, armadura de samurai, quadros e retratos de famílias de imigrantes. Fiquei observando todo aquele importante material, um a um, sorvendo-me daquela cultura. Quando me deparei com os trajes femininos, a lembrança de antigos vizinhos japoneses, em especial, de Helena, me fez surgir muitas recordações. Foram pessoas que marcaram minha adolescência e a de meu irmão, influenciados por esse povo de rica sabedoria.
A cada traje da exposição, meu pensamento ia longe, para meu passado...
... 
Estávamos na década de 70, quando ganhamos novos vizinhos. Morávamos em uma vila sem saída onde habitavam quatro famílias de nacionalidades diferentes, de brasileiros, a nossa, de italianos, portugueses e de japoneses.
Helena era o nome da esposa do casal, era nissei (filha de pais japoneses). Seu esposo, Takashi, era japonês; a família veio de Kobe quando ele tinha dois anos.  Eles foram os últimos a chegar à vila e os primeiros a partirem rumo a uma vida melhor na Capital.
Lembro-me de nossas costumeiras conversas. Tardes em que ela passava a roupa diária e eu a tagarelar, em busca de um conselho amigo, que só ela parecia me entender. Seu sermão era acolhedor e com grande lição de vida.
Foi graças a ela que meu irmão aprendeu o idioma japonês inspirado nas histórias que ela costumava contar, e que o beneficiou em uma empresa multinacional.
Certa tarde ela não pôde me atender, notei lágrimas em seus olhos e vi que seu marido estava em casa. No dia seguinte aconteceu a mesma coisa e assim se sucedeu por uma semana. Eu tentava falar com ela, mas era em vão. Conversei com os outros moradores e esses também não sabiam o que estava acontecendo.
Será que morrera algum parente? Pensamos preocupados, os moradores da vilinha.
E quando aflitos todos nós estávamos, eis que surge algo novo na vila, na casa de Helena, um ateliê de roupas japonesas. Pois é, como exímia costureira que era e para driblar os problemas financeiros, pois Takashi fora despedido de seu emprego na extinta Mar Veículos, Helena começou a costurar para fora. Dia e noite ela desenhava, cortava e fazia belíssimos quimonos e vestidos para todos os gostos.
A produção foi crescendo e Helena, além de comercializá-los na vizinhança, passou a promovê-los na feira da Liberdade, subindo a Serra todo sábado, com a ajuda de seus três filhos.
— Takashi é um homem de sorte, tendo uma mulher com esse brio! Elogiava minha mãe.
Foi assim que a família Hideo superou a crise. Eles se mudaram para São Paulo cinco anos depois que o comércio de roupas de Helena conseguiu espaço definitivo na Liberdade. No final dos anos 80, Helena era dona de uma grande butique japonesa, e Takashi possuía uma oficina de carros. Ele nada teria se não fosse a perseverança dela, que conseguiu dar a volta por cima e ainda tirá-lo de uma terrível depressão.
Helena foi uma pessoa maravilhosa que passou em minha vida e só deixou boas recordações. Seus filhos seguiram o caminho da mãe.
...
Fui caminhando pela sala da exposição até examinar a última peça. O local não era grande, mas a saudade e o sentimento que me trouxe, valeu cada minuto desperdiçado naquele dia, lembranças de Helena e de pessoas que não mais tenho contato, mas que ficarão eternamente em minha memória.

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O Cavaleiro do Tempo


   No Big Bem já era quase meia-noite. Caminhava lentamente pela St Margaret.  Era fácil enxergá-lo por sua altura de 1,98 m, o porte físico musculoso e os cabelos ruivos ao ombro. Era um homem muito bonito.
A neblina quase conseguiu encobri-lo, mas o grupo o cercou.
— Desta vez você não escapará de nós. Vamos levá-lo, pois você tem algo muito valioso!
   Ele parou e encarou todos eles. Olhando um a um, sua vida foi retornando ao passado. A neblina já não caia mais em seu corpo. Estava leve, o ar puro e cheiroso. Estava num lindo campo florido, sob o sol da Primavera. Flores coloridas brilhavam ao seu redor...
... — Sir Lancelot, venho comunicar-lhe que seu filho nasceu. É um lindo menino. Ele não foi ver a criança, fruto de um feitiço de Elaine, filha do Rei Pelinore, que se passando por Guinevere, seu grande amor, o seduziu. A criança nada teria com isso, contudo, não quis conhecê-lo.
   Galahad agora com 18 anos foi encontrar-se com Lancelot porque queria tornar-se cavaleiro para servir ao seu rei. Não precisou vencer nenhuma batalha para ser batizado, querido e elogiado de Arthur, bastou sentar na cadeira proibida e fazer jus de seu nome. Galahad era diferente dos demais, um cavaleiro com um espírito grandioso e aplaudido por todos.
   A “febre” da procura pelo Graal deixou Arthur cego e ele enviou alguns homens para essa missão, que foi liderada por Galahad. Partiram numa manhã de domingo, a névoa e o frio do início do inverno fizeram com que os homens não ficassem tão velozes como no verão. O grupo era formado por Perceval, Boors, Acolon, Ectório e Agravaine.
   Rumaram pela longa estrada. Depois de três dias chegaram a um vilarejo e se instalaram numa humilde casa.
— Sir Galahad um senhor de barbas compridas e brancas deixou esse mapa para o senhor.
   Era o mapa de Merlin. Como ele sabia que eu viria para cá e à procura do Graal? Merlin escrevera numa língua que eu não entendia, mas enfim, tentarei segui-lo.
— Meu senhor Galahad, não compreendemos o que está escrito, mas vamos tentar seguir pelos desenhos. Assim partiram.
   Depois de dois dias de cavalgada avistaram uma luz brilhante que vinha do alto de uma colina. Caminhando há quase quatro horas chegaram ao lugar. Da porta da gruta, via-se que era imensa. Acenderam tochas e entraram.
— Galahad, falou Perceval, não estou gostando nada daqui. Estou com um mau pressentimento.
— Que isso irmão, disse Acolon, vamos pernoitar, pois a exaustão está nos fazendo sentir coisas. Aqui parece ter de tudo, a água é tão límpida e brilhante como cristais; esse lugar é fantástico! Olhe as pedras que não parecem tão duras assim, dá para dormirmos tranquilamente. Sinta o cheiro, hum, que delícia, uma fragrância que não consigo distinguir! Parece flores e ao mesmo tempo frutas frescas.
— Não bebam a água e não toquem em nada! Gritou Galahad, mas Boors, Ectório e Agravaine já haviam tomado a água e cambaleando, com as pernas dobrando-se, caíram rapidamente. Galahad correu até eles e os batimentos estavam fracos. Respiravam com dificuldade e estavam imóveis.
   Galahad e os outros, desesperados, tentaram levantar os companheiros, que agora, não podiam mais ser removidos, pois estavam petrificados e brilhantes como cristais.
— Vamos sair daqui, depressa, corram...
  Nisso uma mulher alta, com lindos cabelos compridos louros vem caminhando do fundo da caverna na direção deles. A moça parecia uma miragem, um anjo de tão angelical e bela, vestida de branco. Ela se aproximou e com voz macia e melodiosa os cativou. 
— Eu sou prisioneira deste lugar. Não consigo sair porque tem uma fera que não me deixa ir embora...
   Sem que ela terminasse, um vulto enorme se aproxima rapidamente, voando das profundezas da caverna. Suas imensas asas tomam quase conta do teto.
— Vamos homens, subam. Galahad pega a moça pela cintura e começa a correr. O dragão sobrevoa e desce na frente deles. Cuspindo fogo, Acolon é atingido e cai morto queimado. Os outros com as espadas, partem para o inimigo. O dragão voa e tenta acertá-los com o rabo. Com astúcia os cavaleiros desviam e o dragão baixa voo novamente sobre eles. A labareda não atinge ninguém desta vez. Os homens tentam atingi-lo com flechas. O dragão muda de direção e novamente se aproxima deles. Perceval quase consegue atingi-lo, mas o rabo do bicho bate em suas pernas e ao cair, o dragão o puxa e o joga longe. Perceval bate nas rochas e morre entre elas. Galahad pula em cima do bicho e fica agarrado em seu pescoço, enfiando a espada no animal. Fraco e sangrando, o dragão vai ao chão.
— Tira o medalhão dele, grita a donzela. Depressa, arranca, pois é isso que o torna vivo!
   Galahad, porém, fica parado na frente do dragão que agora fraco, está a morrer.
   A mulher corre na direção do dragão para ela mesma pegar a corrente, mas é impedida por uma força mística que a joga ao chão.
  O bicho fecha os olhos. De dentro dele emerge um espírito que retira o medalhão e vai na direção de Galahad.
— Você é realmente um grande cavaleiro, não só pela força e coragem, mas porque tem um grande coração é casto e puro. Você será o meu substituto a afastar o mal e ao colocar o medalhão sagrado, se tornará imortal. Não poderá deixar ninguém tirá-lo de você para que o mal não se propague pela Terra. O espírito colocou o medalhão no pescoço de Galahad e a moça, que agora estava em sua aparência normal, uma bruxa velha e feia, tentou se aproximar, mas a força invisível a petrificou.
   Galahad partiu sozinho, continuando a busca pelo Graal.
   Percorreu várias cidades, e em Larkhill, conheceu um homem que se disse religioso e conhecedor da linguagem do mapa, afirmando que o cálice estaria escondido nas ruínas sagradas de Stonehenge.
— O seu medalhão, disse Merkel, que estava disposto a ajudá-lo, é a chave para encontrar o cálice, pois ele é feito de pedra magnética e só ela tem esse poder de achar o copo sagrado de Cristo.
   Galahad ficou satisfeito com a boa intenção do pobre homem e partiu com ele em busca da taça de Jesus.
   Cavalgaram por quatro horas e no meio da tarde chegaram ao local. Merkel e Galahad se aproximaram das imensas rochas sagradas. Galahad se distanciou do mercador, que começou a andar devagar, ficando bem atrás dele.
— O que foi Merkel, está cansado? É melhor você se sentar para descansar.
  Nisso pressentiu que não estavam sozinhos. Sem ver os homens, pode sentir suas presenças. Olhou para trás e não viu Merkel. De repente, cinco homens e o próprio Merkel cercaram-no.
— Entregue o medalhão Galahad, disse Merkel, e não lhe faremos mal. Era uma emboscada. Mas por que o medalhão se era o cálice o tesouro?
   Galahad caminhou lentamente e parou no centro das rochas com a espada nas mãos. Os homens tentaram golpeá-lo, mas o cavaleiro os derrotou, matando todos, inclusive o falso Merkel.
   Galahad depois desse episódio continuou com sua missão percorrendo mais cidades, vilarejos, atravessando a Europa. Sua busca não teve fim...
...Sentiu o vento gelado de Londres novamente bater em seu rosto. A neblina e os homens que o cercaram permaneciam lá aguardando por ele.
— John, ou Galahad, como preferir, queremos o seu medalhão. Não iremos machucá-lo se você o entregar, disse o chefe do bando.
Galahad continuou sem responder. Olhou para todos novamente, respirou fundo e tocou o medalhão. Fechou o casaco e seguiu caminho deixando para trás os homens, petrificados.
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Este conto é uma homenagem ao meu romance favorito: 
“As Brumas de Avalon”


O SEGREDO DE AVALON 

“Morgana não precisava mais chamar a barca, só precisava caminhar através das brumas e chegar a Avalon.
Sua tarefa estava cumprida” 
Marion Zimmer Bradley
As Brumas de Avalon – final do livro 4: ”O prisioneiro da árvore”


      Cuidadosamente quatro criados de Morgana colocaram o homem sem vida dentro da barca, cujas roupas ensangüentadas e rasgadas escondiam a sua identidade real. Os cabelos louros sujos de sangue e de barro ainda brilhavam quando refletidos aos tímidos raios de sol. Morgana sentou-se ao lado dele e colocou a espada em cima de seu corpo.
“Sentei-me na barca também, ao lado de minha prima Morgana”.  
Sob o comando dela, Kevin, o irmão mais novo de Raven - que outrora fora a melhor e fiel amiga de Morgana, seguindo-a até o fim de seus dias-, começou a remar lentamente. Partimos no lago de águas cinzentas e calmas no mais profundo silêncio.
Ao chegarmos ao atracadouro, dez pessoas nos aguardavam. Retiraram o corpo da barca, deitaram-no em uma liteira feita de tronco de carvalho e de couro de gamo toda enfeitada com folhas de macieiras,                         retiraram as vestes rasgadas do rei e limparam seu corpo, até que sua imagem surgisse novamente aos olhos de todos. A espada foi colocada mais uma vez sobre seu corpo. Vestes brancas realçavam a pureza da alma do rei, que sempre em batalha, protegeu o seu povo de bárbaros e dos bretões, mas não foi capaz de se proteger de seu maior inimigo, seu próprio filho.
Pronta, a liteira foi levantada e o cortejo rumou para onde ele seria sepultado; num lugar que Morgana havia preparado somente para ele, pois,  ela mesma afirmou: “Arthur deve ser enterrado em Avalon, porque só em solo sagrado da Deusa Mãe é que ele poderá dormir tranquilamente sem que perturbem seu túmulo com rezas de uma crença que não é a dele. Como ele fez juramento que nos protegeria, desta forma poderá olhar por nós, pois estará aqui na ilha”.
“E aqui estou eu, ajudando minha prima a concretizar seu desejo, que, afinal de contas, acho que é o mais certo a fazer. Conseguimos encontrar o corpo de Arthur em meio a tantos outros; não vimos o de Mordred, será que ele realmente está morto? Ou será que ele derrotou, com sua espada banhada em ódio, o coração inviolável de seu pai? Mas acredito que ele também esteja morto sim, pois essa batalha, a última de meu rei e protetor de toda a Bretanha, não teve vencedores. Havia mortos por todos os lados misturando-se entre os que seguiam o bem e os que preferiram o mal. Sangue e restos de uma luta sem sentido porque outrora Mordred poderia ser o futuro rei, como único descendente”.
Na frente caminhavam Morgana, de roupa negra ao lado de Galahad (Lancelote), seguidos de três mulheres da Ilha também vestidas com túnicas pretas e pinturas azuis nos rostos carregando flores, o corpo de Arthur sendo levado por dois homens e mais três mulheres atrás, guardiãs de Avalon. Todos os que acompanhavam jogavam pétalas ao chão, para aromatizar o caminho por onde passava o rei. As filhas da Ilha tocavam harpa e canções provenientes do lugar. Morgana, apesar da frieza, deixava escorrer lágrimas de seus olhos negros, que agora com mais idade, não brilhavam como antes, quando Lancelote a conhecera ali mesmo.
Já estavam perto de onde Arthur seria sepultado, ao lado do poço sagrado, onde uma cova aberta e mais pessoas aguardavam por eles.
-Antes que você pergunte Galahad, ele será enterrado ali porque é o local mais seguro da ilha e tenho certeza de que ninguém irá procurar, caso algum dia possam cavaleiros passarem por aqui. Como não terá nenhuma marca ou símbolo indicando que o rei repousa ao lado da água sagrada, após o enterrarmos, a terra receberá flores brancas, que simbolizam a paz eterna.
As mulheres ajudaram os homens a descer a liteira e a mesma foi colocada em cima de um tronco, para que as rezas da ilha fossem exclamadas. Morgana, como a grande sacerdotisa e Senhora se encarregou de prosseguir com a bênção. Enquanto ela falava, uns continuavam com a harpa e outros jogavam as pétalas sobre o corpo do rei. Antes que o corpo fosse colocado na cova, Morgana e Lancelote abaixaram-se em frente ao rei para a última despedida, e os demais, fizeram um círculo ao redor deles.
“Olhei fixamente para minha prima e pude compreender todo o sofrimento que ela sentia naquele momento, toda a amargura de uma vida inteira mergulhada em ódio, amor e frustração. Pude captar por sua mente aberta, e que fora um dia a moça ingênua que conheci até ela se tornar aquela mulher poderosa, como minha mãe Viviane, a Senhora do Lago, também o foi. No entanto, Morgana falou baixinho o que eu escutava; as palavras ecoavam do fundo de seu ser”.
-Lembro-me de quando cheguei neste lugar, trazida por Viviane para receber os ensinamentos sagrados, para ser a próxima sacerdotisa que assumiria o lugar dela e tomaria conta da Ilha e de seus filhos. Eu, a princesa de Tintagel e filha do Duque Gorlois da Cornualha, filha primogênita de Igraine, cuja beleza seduziu o maldito Uther, o Pendragon. Foi ele quem começou com essa conquista pelo poder, pela posse. Uther, que por amor a minha mãe, traiu e matou meu pai, casando-se com ela e gerando Arthur. Se ele não tivesse aparecido em nossas vidas, talvez nada disso acontecesse; quisera Arthur nunca ter sido meu irmão, meu rei e amante. Quisera Mordred ter sido filho de outra pessoa, que lhe tivesse dado amor, ao invés de desprezo. Quisera uma outra vida sem feitiçaria, sem luta pelo poder e pelos costumes da Deusa. Há, quem sabe eu não estivesse aqui ajoelhada pedindo perdão pela morte de meu irmão, pois eu também o trai. Se eu...
-Espere, veja Morgana, do outro lado da ilha...
E todos se voltaram para os cavaleiros que percorriam as terras a procura do rei. Lá estavam Gawaine, Cai e os outros homens de Camelot. Eles moviam-se de um lado para outro. Foi quando Gawaine, com um sinal, juntou todos e, tirando as armaduras pesadas, eles montaram nos  cavalos e entraram no lago. Vinham em direção à ilha. Morgana e Lancelote se levantaram e apreensivos, observavam os cavaleiros do rei aproximando-se. Os nativos se dispersaram e aguardavam rentes à margem.
Os homens, cada vez mais profundos nas águas não desistiam. Cai, dono de uma visão espetacular, apontava para Avalon como se estivesse avistando algo.
Rapidamente Morgana e o primo ordenaram que enterrassem o rei. Cobriram a cova e a despistaram com flores em cima, como se fosse um jardim. “Pelo menos não acharão o túmulo”, pensou a sacerdotisa.
Daquela profundidade os soldados de Arthur não tinham mais como prosseguir com os cavalos que foram abandonados e eles começaram a nadar.
Foi quando Morgana lembrou-se da magia da névoa. Então, num gesto rápido ela fechou os olhos, esticou os braços além de sua cabeça e com as mãos esticadas para o céu, baixou-os rapidamente...
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         Clarinha quer ir à praia

Ela se chamava Clarinha por ser muito clara. Desde que nasceu, sua alva pela e seus belos olhos verdes davam-lhe uma beleza incrível, irreal, digna de ser apreciada em qualquer lugar.
Clarinha era muito diferente de seus três irmãos, que, ao contrário dela, eram morenos como o pai.
A bela menina nunca havia conhecido o mar; paixão de sua vida. Ela somente sabia daquela imensidão de água salgada através de livros e pela televisão, o que aguçava mais a sua curiosidade e vontade de conhecer.
-Quero ir à praia, papai. Vamos passar uns dias das férias em uma cidade de praia? Você nunca me levou lá. Todos de minha classe conhecem a praia e eu não.
O desejo de ir conhecer o mar e a praia já se tornara uma ladainha, bastava o pai sair de férias. Todo ano era a mesma coisa. O pai, por sua vez, mesmo contrariando a filha, preferia, depois de chantagear a menina dizendo que eles deveriam ir visitar os avós que moravam muito longe, não ir passear na praia. A mãe de Clarinha, sempre neutra nas decisões, acatava o pedido do esposo.
Choramingando e reclamando a menina ia se conformando, pois ela mesma também estava com saudades dos avós paternos, que quase nunca os via.
Mas nesse ano, o pai de Clarinha, Rafael Soares, decidiu fazer a vontade da filha caçula e passar uns dias na praia. Sim, eles iriam, finalmente, conhecer o mar.
   -Você venceu filha. Como presente de Natal, vamos à praia!
   Clarinha, corada de alegria, não acreditava no que ouvia, e a frase da afirmação do pai, ficou ecoando por umas duas horas em sua cabeça.
   Chegou o dia da viagem e Clarinha parecia “barata tonta”, andando de um lado para o outro, ofegante e apressando os irmãos. Ela já havia arrumado a mala desde a semana passada e comprara três biquínis para a ocasião.
   Rafael Soares alugara um apartamento em Santos, de um amigo do serviço, que lhe fizera um bom desconto e eles partiram de Jundiaí.
   Clarinha não se continha de tanta felicidade, momentos que ela jamais esqueceu na passagem de seus 11 anos.
   -Papai, quando chegaremos? Já estamos nessa estrada há horas e nada da praia. Indagava a menina.
   -Calma filha, logo estaremos avistando a Baixada Santista, e aí, você verá que falta pouco.
   Mas como o pai falava, o carro andava, e a praia não chegava, Clarinha retomava a pergunta que começara a perturbar a todos do carro, “papai, quando chegaremos?”.
   E a menina perguntou novamente.
  O pai, vendo que a situação já estava fervendo entre todos, não respondeu.  Clarinha então, decidiu dormir e sonhar com a praia.
Depois de 40 minutos, eles chegaram a Santos, desembarcando na praia do Gonzaga.
   Clarinha começou acordar e viu que todos se movimentavam indo e vindo do carro pegando as coisas.
   -Já chegamos?
   -Sim filha, estamos tirando as malas para levarmos ao quarto, respondeu Lana Soares, mãe de Clara. Os irmãos que também estavam ansiosos como ela e se apressavam com as bagagens. Porém, quando a menina despertou de verdade e percebeu a situação, gritou de felicidade:
   -Papai, vamos lá para a praia, não posso esperar mais!
   Rafael Soares, que tinha muita paciência com os filhos, deixou que a esposa e os irmãos terminassem sozinhos e partiu com Clara à praia, que ficava há duas quadras do prédio.
   Os dois caminhavam pela rua em passos rápidos, quietos, poupando o fôlego até chegarem ao local.
   Atravessaram a rua e pisaram no calçadão. Clarinha correu até a ponta do imenso jardim de Santos e, antes de pisar na areia, namorou aquela preciosa paisagem por alguns minutos. Dos olhinhos infantis dela escorriam lágrimas e a forma como ela visualizava tudo aquilo, sem piscar, e de boca aberta, traduzia a felicidade que a menina sentia.
   Num ímpeto de emoção, Clara tirou o tênis e as meias e pisou, finalmente, na areia. Ela não correu para o mar, caminhava lentamente, pisando e sentindo cada passo. Sentindo a areia fofa entre os dedos, a menina sorria de felicidade.
   E ela chegou à beira da praia. Parou mais uma vez, sem que ainda pisasse no mar. Olhou a imensidão do oceano, a sincronia harmoniosa do vai e vem das ondas e caminhou até a água. Pisando lentamente e sentindo a água fria bater-lhe na canela, Clara abaixou-se e tocou o mar, experimentando o sabor da água salgada. Ela também passou a água em seus braços e rosto. Clara entrou um pouco mais, permanecendo até os joelhos e assim ficou por dez minutos. Voltando-se extasiada ao pai, a menina beijou-lhe a face e agradeceu. Os dois se abraçaram e voltaram ao apartamento.
   Hoje o pai de Clarinha já é falecido e a menina, agora com mais de 40 anos, ainda se lembra daquela data, 25 de dezembro de 1985, com muito carinho, pois foi a primeira vez que ela viu o mar. Não foi a última, mas a recordação dos primeiros momentos na praia, fizeram daquela viagem inesquecível e o melhor presente de Natal que alguém poderia receber.

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